Sinais do tempo

No começo da filmografia de António-Pedro Vasconcelos, logo após a primeira longa-metragem, Perdido por Cem (1973), encontramos um exercício de raiz documental que valeria a pena revisitar. Chama-se Adeus, Até ao Meu Regresso (1974) e o seu título retoma uma expressão corrente dos tempos pré-25 de Abril: na televisão, nas "mensagens de Natal" dos soldados mobilizados para as chamadas províncias ultramarinas, era frequente cada um dos intervenientes concluir os seus votos familiares com a expressão "adeus, até ao meu regresso".Ao apropriar-se de tais palavras como uma espécie de mantra de uma vivência de angustiada nostalgia, o filme conseguia uma proeza que envolvia tanto de cinematográfico como de simbólico: a frase feita (na medida em que consagra a interminável repetição de um sentido que tende para o esvaziamento) adquiria uma perturbante função reveladora - afinal, na monotonia triste das palavras pressentíamos a infinita diversidade dos destinos individuais.Creio que podemos dizer algo de semelhante a propósito dos frágeis "heróis" de Amor Impossível, o par que Victoria Guerra e José Mata compõem numa luminosa avalancha de emoções: são jovens "dos nossos dias" que, em qualquer caso, se revelam para além dos padrões dominantes da ficção, a começar, claro, pelas formatações psicológicas e morais da telenovela. Aliás, a decisiva importância do trabalho dos atores (Soraia Chaves e Ricardo Pereira, nas personagens dos investigadores policiais, são também impecáveis) é reveladora da ambição dramatúrgica do cinema de António-Pedro Vasconcelos: confrontar-nos com sinais que reconhecemos facilmente e, ao mesmo tempo, fazer-nos compreender que nada está adquirido no reino das relações humanas. No limite, conhecer o outro é uma tarefa impossível.

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