Quem se lembra de Wajda e Étaix?

Ciclicamente, a defesa do cinema europeu emerge, timidamente, na agenda dos governantes. Mas no dia-a-dia da informação, quem o defende? Sejamos prudentes, em qualquer caso: a sensatez aconselha a não nos acomodarmos em generalizações fáceis nem favorecer visões catastrofistas. Fiquemo-nos, neste caso, por alguns pequenos sintomas.

Assim, ao longo da semana, primeiro no dia 9, depois a 14, soubemos da morte de Andrzej Wajda e Pierre Étaix, respetivamente, dois nomes fundamentais na história do cinema europeu da segunda metade do século XX. Vale a pena perguntar como é que as notícias surgiram no IMDb (imdb.com), o popular site de cinema da internet, listado pela Alexa Internet Inc. (empresa californiana de análise do tráfego virtual) como o 58.º mais visitado em todo o planeta.

Pois bem, nem Wajda nem Étaix mereceram qualquer destaque na página de abertura do IMDb. Sendo o IMDb dominado, de modo avassalador, pelas referências ligadas ao cinema americano, nem sequer o facto de Étaix ter ganho um Óscar com a curta-metragem Heureux Anniversaire (em 1963, prémio partilhado com Jean-Claude Carrière) lhe trouxe qualquer evidência - 24 horas depois da divulgação do seu falecimento, a informação ainda não constava da respetiva ficha.

Convém não simplificar, insisto. Sobretudo, importa não transformar estas peripécias numa qualquer demonização do fascinante cinema que também se faz em Hollywood, tradicionalmente acompanhada pela pueril santificação da produção europeia. Aliás, há outro sintoma que não podemos recalcar: um dia depois de ser conhecida a morte de Étaix, a respetiva notícia também não constava do site da Academia Europeia de Cinema (entidade que desempenha funções de divulgação, promoção e atribuição de prémios em parte idênticas às da Academia de Hollywood).

Que está então, em jogo? Um esvaziamento quotidiano das imagens públicas do cinema europeu, favorecido por entidades tão universais e abrangentes como o IMDb (o que, como é óbvio, não exclui o reconhecimento das suas outras virtudes informativas). Desta vez, tratava-se mesmo de dois nomes com óbvias ressonâncias universais. Wajda, também detentor de um Óscar (honorário, atribuído em 2000), foi um admirável retratista crítico da desumanização do comunismo polaco; quanto a Étaix, além de explorar as linguagens universais da comédia, integrou importantes influências de criadores de Hollywood como Charles Chaplin ou Buster Keaton.

No plano da cultura mediática (entenda-se: sustentada pelos mais poderosos meios de comunicação), o que importa reconhecer, enfrentar e analisar é o triunfo de um discurso informativo que tende a viver do ruidoso destaque dos blockbusters, ignorando a imensa pluralidade do cinema do presente e do passado. É verdade que a história também nos ensina que há admiráveis blockbusters... Sem dúvida, mas quem disse o contrário?

Mais Notícias

Outras Notícias GMG