Quando os políticos não falam de arte

Revejo o extraordinário documentário de Frederick Wiseman, National Gallery (agora lançado em DVD), e fixo-me, desde logo, na sua breve e fascinante sequência de abertura. No âmbito de uma visita guiada, uma funcionária daquele museu de Londres comenta uma pintura medieval, insistindo em particular no facto de os atuais espectadores do quadro necessitarem de fazer um esforço de raciocínio e adaptação para compreenderem a sua perceção na época (1377) em que foi colocado no interior de uma igreja: desde a luz difusa dessa igreja até às agruras de um dia-a-dia marcado por muitas doenças e mortes, somos levados a sentir as irredutíveis diferenças entre o efeito simbólico daquele objeto na sua origem e a visão que, agora, dele podemos construir.

Há outra maneira de dizer isto: conhecer a arte e as suas imagens não é o mesmo que acumular referências mais ou menos enciclopédicas, supostamente capazes de consolidar um saber uno e unívoco, fechado e definitivo. Por alguma razão, a câmara de Wiseman dá especial atenção a dois tipos de olhares: o dos espectadores, claro, contemplando, entre a surpresa e o maravilhamento, os tesouros da National Gallery; e o dos que lá trabalham, em particular nas oficinas de restauro, garantindo que as memórias sejam, antes de tudo o mais, um fenómeno eminentemente material.

Falar de arte - do seu valor patrimonial, tanto quanto da nossa relação com os respetivos objetos e criadores - é algo que, infelizmente, quase desapareceu da cena política. Não se trata, entenda-se, de defender qualquer infantilismo "lírico", segundo o qual os políticos deveriam pontuar o seu discurso público com divagações mais ou menos "artísticas". O problema está muito para além (ou aquém) desses jogos florais: de facto, os políticos de todas as áreas e sensibilidades demitiram-se de tecer considerações sobre as formas de perceção e representação do mundo. Uma prova? O seu lamentável, sistemático e pusilânime silêncio sobre o espaço televisivo e, em particular, sobre a degradação populista de muitos dos seus conteúdos.

Não é uma questão meramente instrumental. Num contexto em que os horrores da reality TV se tornaram um elemento nuclear da cultura televisiva dominante, trazer a arte para o domínio das nossas preocupações quotidianas seria um exercício de rudimentar profilaxia social (sobretudo quando o "social" está invadido pelas vulgaridades mais ou menos insultuosas de que se fazem as respetivas "redes").

Numa sociedade com uma relação saudável com o trabalho artístico, desde logo no domínio do ensino, seria possível manter (e enriquecer) uma dinâmica de ideias e valores que recusasse, ponto por ponto (leia-se: politicamente), a desvergonha a que chegaram muitas práticas de raiz televisiva. Neste contexto, silenciado ou não pelo burburinho dos "famosos" e pelas guerras do futebol, o filme de Wiseman é um acontecimento realmente fora de série.

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