Para além da lenda

Na sua sabedoria clássica, o realizador Frank Capra (1897-1991) conhecia os fundamentos da consistência cinematográfica. Um dia, questionado sobre os três fatores decisivos na arquitetura de um bom filme, deu uma esclarecedora resposta: "O argumento, o argumento e o argumento." Face à inteligência narrativa de Steve Jobs, não serei eu a diminuir as qualidades da realização de Danny Boyle: este é mesmo um caso em que Boyle sabe evitar o formalismo gratuito que tem marcado alguns dos momentos menos interessantes da sua filmografia, com destaque inevitável para o anterior Transe (2013).

Seja como for, o génio deste retrato do homem em que se confundem a tecnologia e a mitologia da Apple não pode deixar de ser atribuído, antes de tudo o mais, ao prodigioso trabalho do argumentista Aaron Sorkin. Estamos, de facto, perante um descendente direto da nobreza dos escritores de Hollywood (em 2011, ao receber o Óscar de melhor argumento adaptado por A Rede Social, de David Fincher, evocou mesmo o nome emblemático de Paddy Chayefsky). Ao "resumir" a biografia de Jobs, da autoria de Walter Isaacson, num tríptico carregado de simbolismo (evocando os lançamentos de produtos decisivos na evolução histórica dos computadores), Sorkin liberta a personagem da sua própria lenda, devolvendo Jobs à condição humana, porventura demasiado humana, de um ser marcado pelas mais intrigantes e fascinantes contradições afetivas.

Em tempos de celebração dos efeitos especiais e das proezas ruidosas dos "super-heróis", não estará muito na moda dizê-lo, mas é um facto: Steve Jobs é um filme sem preconceitos de abraçar as matrizes mais clássicas do retrato psicológico. Convém, por isso, não esquecer o outro génio do filme: chama-se Michael Fassbender e interpreta Steve Jobs.

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