Os zombies dos nossos sonhos

A personagem de Rick Grimes, interpretada pelo inglês Andrew Lincoln na série The Walking Dead (cuja sexta temporada está a passar no canal Fox), constitui um misto invulgar de transparência e mistério. Ele é, afinal, o símbolo primeiro daquela comunidade que, tenazmente, continua a resistir aos zombies que transformaram a existência humana numa angústia permanente; ao mesmo tempo, a sua condição de autoridade (recorde-se que Rick era um xerife de uma pequena cidade) está envolta numa teia de ambivalências que, em boa verdade, nos obrigam a relativizar todas as noções de poder e respetiva legitimidade.

Há outra maneira de dizer isto: apesar da importância visual e dramática dos zombies na dinâmica narrativa de The Walking Dead, a série é menos sobre a ameaça exterior, literalmente não humana, e mais sobre os seus efeitos no equilíbrio dos próprios laços humanos. Na prática, a luta de resistência aos zombies foi-se transfigurando (sobretudo a partir da terceira temporada, com a personagem rival do "Governador", interpretado por David Morrissey) num desafio existencial e filosófico ao próprio conceito de cumplicidade humana. Ou de forma mais crua: quando é que a minha sobrevivência depende da morte de outro humano?

Como encenar a sobrevivência do género humano?

Em última instância, não se trata de responder a uma interrogação tão radical como essa. Aliás, por mais estranho que isso possa parecer aos espectadores mais distantes da série (e da complexidade de muitas narrativas da cultura popular), The Walking Dead é um universo imbuído de um invulgar calor humano, marcado por gestos da mais genuína compaixão e solidariedade. Trata-se, isso sim, de colocar em cena os contrastes, eventualmente as contradições, que podem estar envolvidos no exercício de qualquer forma de poder.

Daí os mais perturbantes efeitos simbólicos que detetamos em alguns momentos de The Walking Dead. Não são efeitos pueris que nos levem, por exemplo, a supor que esta ou aquela personagem "duplica" alguma figura da cena histórica ou do jogo político. São, isso sim, mecanismos de associação figurativa que, em particular na primeira temporada, levaram, por exemplo, a representar a desolação de alguns cenários urbanos como sucedâneos visuais das ruas de Nova Iorque no 11 de Setembro. Ou ainda, no final do primeiro episódio da sexta temporada, a perturbante semelhança da deriva dos zombies com algumas imagens de multidões de refugiados no atual êxodo europeu.

O que é importante sublinhar neste tipo de associações está para além de qualquer simplismo descritivo (os nossos dramas existenciais não se deixam expor, de facto, como histórias de zombies). Acontece que, através de processos de associação e deslocação, como aqueles que Freud nos ensinou a conhecer nos sonhos, as imagens mais estranhas ou surreais podem envolver as emoções mais íntimas. Como se houvesse também um realismo de natureza puramente afetiva.

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