Órfãos do romantismo

Os telhados de Paris. Um par que se beija numa varanda. As figuras duplicadas no vidro de uma janela. Foi uma das imagens que me vieram à memória quando soube da morte de Jacques Rivette (dia 29, contava 87 anos). Pertence a O Amor Louco (1969), filme em que convergem diversos elementos que, por assim dizer, definem a sensibilidade de uma época: a memória próxima e desencantada do Maio de 68; a sedução de um romantismo órfão do seu próprio classicismo; a cumplicidade entre aquilo que as personagens vivem no palco e nos bastidores; a paixão pela fotografia a preto e branco, não como símbolo de qualquer revivalismo chique, antes como laço técnico e afetivo com o primitivismo de um cinema que não desiste de registar as angústias do nosso viver; enfim, o título roubado ao livro de André Breton (publicado em 1937).

Lembrei-me também da longa duração de O Amor Louco: mais de quatro horas (em rigor: quatro horas e 12 minutos). Escusado será dizer que, em qualquer época, os filmes cuja duração excede a norma (à volta de duas horas) levantam problemas de difusão. E não tenhamos ilusões: a primeira motivação de tais problemas não é de natureza artística ou conceptual, mas linearmente comercial - qualquer filme com cerca de três horas (ou mais) vê reduzido o seu número de sessões diárias.

Acontece que a duração, em Rivette, não é um fim em si mesmo - por exemplo, o seu maravilhoso filme final, 36 Vistas do Monte Saint-Loup (2009), dura 84 minutos. Ilustrando a sensibilidade fundadora da Nova Vaga francesa, ele foi um dos que quiseram extrair as consequências mais radicais da possibilidade de encarar o cinema, não como uma "reprodução" da vida, mas sim a criação de novos parâmetros da experiência humana - ver um filme "longo" era, afinal, viver uma experiência singular com esse filme e, em certo sentido, no interior dele.

O caso-limite é, obviamente, Out 1: Noli Me Tangere (1971), deambulação amarga e doce pelas paisagens afetivas pós-Maio de 68 que durava nada mais nada menos do que 12 horas e 30 minutos (a sua versão "curta", lançada um ano depois com o título Out 1: Spectre, tinha quatro horas e 13 minutos). Recordo-me de assistir ao filme na Fundação Gulbenkian, programado por João Bénard da Costa, e não posso deixar de (me) perguntar que condições existem, hoje em dia, para dar a ver obras tão singulares e heterodoxas.

Não se trata de especular sobre que entidades existirão, agora, com disponibilidade para organizar tão extraordinárias sessões. Importa deslocar a questão para o domínio do público, perguntando: onde estão os espectadores capazes de corresponder aos desafios que a história do cinema envolve? Vivemos, de facto, sob o jugo de um cultura da gratificação "automática" que, através dos seus muitos silêncios, lança automáticas suspeitas sobre tudo o que não encaixe nas respetivas matrizes de consumo. E o génio de Rivette exige um pouco mais do que isso.

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