O novo Presidente não se chama Rui Vitória

Nas imediações do Parlamento, alguns cidadãos entrevistados pelas televisões confessavam que, mesmo simpatizando com o novo Presidente da República, não estavam ali por militância - eram apenas habitantes da zona de São Bento ou têm aí o seu local de trabalho. De facto, desta vez, o espaço televisivo não teve à sua disposição aquilo que, por regra, tende a privilegiar: o ruído de multidões ululantes capazes de materializar uma noção pueril de "povo" (no futebol, para satisfazer tal visão, já bastaram duas ou três dezenas de adeptos a insultar alguém à porta de um estádio).

Escusado será dizer que a trajetória de Marcelo Rebelo de Sousa lhe traz um conhecimento muito fino desta conjuntura televisiva. Aliás, mesmo não admirando o seu registo de comentador político (era o meu caso), importa reconhecer que tem tido o cuidado de não favorecer qualquer utilização populista da sua persona televisiva. A chegada ao Parlamento, na sequência de um pequeno trajeto a pé (a partir da casa que foi dos seus pais), envolveu um inteligente "desvio": Marcelo expôs--se, não como centro do espaço urbano, antes como peão de um evento que, em breves minutos, o iria consagrar como protagonista.

Marcelo tem um desafio fascinante a enfrentar: o de lidar com um universo de comunicação que bem conhece

Tais peripécias foram sintomáticas de um estado de coisas que, ao longo dos anos, se tem agudizado. A saber: os modelos televisivos dominantes gostam de imaginar uma visão grandiloquente do universo político, mas a sua linguagem (sobretudo a linguagem do direto) favorece sempre, inevitavelmente, uma lógica de "apanhados" - António Guterres a entrar pela zona lateral do Parlamento, por momentos sem ser visto pelos elementos do protocolo, acabou por ser o incauto protagonista de um desses "apanhados" (com admirável fair play, importa reconhecer).

Nada disto pode ser descrito de forma maniqueísta, muito menos moralista. Por exemplo, a cerimónia inter-religiosa na Mesquita Central de Lisboa conseguiu, pelo menos, contrariar a confusão simbólica que marca muitos fragmentos noticiosos que, em poucos segundos, nem que seja por falta de reflexão jornalística, colam de forma automática a palavra "religião" às mais variadas formas de belicismo.

O Presidente Marcelo tem um desafio fascinante a enfrentar: o de lidar com um universo de comunicação que bem conhece e que nem sempre se mostra disponível para consagrar o carácter muito sério de qualquer prática política. Dito de outro modo: pelas sete da tarde, Rui Vitória não era o presidente empossado e André Villas-Boas não tinha perdido as eleições.

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