O batom do nosso descontentamento

Fui um dos utilizadores do Instagram a publicar uma imagem de uma mulher com os lábios pintados de vermelho: um fotograma de Marilyn Monroe, em vibrante Technicolor, no filme Niagara (1953), realizado por Henry Hathaway. Em boa verdade, creio que o efeito imediato de tal gesto acaba por ser profundamente equívoco.

Expor a provocação gratuita de André Ventura ao comentar o "batom vermelho" de Marisa Matias? Sim, sem dúvida. O debate (a que chamam) político está contaminado por peripécias deste calibre intelectual e não tenho a ilusão de me considerar tão indiferente, ou tão puro, que possa alhear-me das respetivas convulsões.

Acontece que a divertida proliferação de imagens de mulheres e homens de lábios vermelhos favorece uma dimensão pueril da qual, insisto, não me estou a excluir. Dir-se-ia que a aceleração dos nossos circuitos "informativos" nos transformou em peões de um jogo contaminado pela possibilidade de arremessar um qualquer símbolo contra o protagonista ou detentor de outra simbologia.

Podemos sempre evocar, ou invocar, o valor clássico e cartesiano da razão. Não no sentido de ter razão "contra" aquilo que seria o erro (a desrazão, precisamente) do outro. Antes porque, defendendo a razão como disponibilidade para o pensamento, talvez seja possível, pelo menos, contrariar um pouco as palavras dos que banalizam o ato de pensar.

Mas é um pouco como acreditar que é possível deparar com alguma razoabilidade na análise política dos dinheiros para as atividades artísticas. Ciclicamente, por exemplo, o oceano mediático agita-se com mais uma discussão sobre os parcos milhões disponíveis para o cinema português... Com que efeitos práticos?

Uma coisa é certa: quase duas décadas depois, continuo à espera que alguma voz da política, de qualquer direita, de qualquer esquerda, venha formular alguma dúvida metódica sobre a pertinência de se terem gasto 645 milhões de euros (muitas décadas de produção cinematográfica...) para construir uma dezena de estádios de futebol para o Euro 2004. Não para montar mais um tribunal "popular" - já basta o que basta. Apenas porque essa dúvida poderia ser útil aos modos de nos pensarmos coletivamente.

O modo como vivemos a política - ou como nos "pensamos politicamente", para aplicarmos uma expressão consagrada pelo trabalho cinematográfico e televisivo de Jean-Luc Godard - passou a depender de peripécias de "batom vermelho" e afins. Como se tudo acontecesse num território delimitado, maniqueísta e frívolo, de que somos espectadores cansados, entre o divertido e o deprimido.

Godard é autor de uma imensa filmografia marcada por estas questões. Em 2019, numa entrevista ao canal franco-alemão Arte, por ocasião da passagem do seu filme O Livro de Imagem (2018), citava, a propósito, estas palavras do filósofo Claude Lefort: "As democracias modernas, transformando a política num domínio autónomo de pensamento, predispõem ao totalitarismo" (traduzo à letra o verbo original: "prédisposer").

Subitamente, compreendemos que o jogo é outro. E, sobretudo, é de outra natureza. Não se trata de saber quem tem o melhor "batom" para contrapor ao "batom" do outro, mas sim de enfrentar a crise de identidade do próprio discurso político. Por alguma razão, em O Livro de Imagem, Godard escolheu criar uma imagem emblemática, isolando a mão direita de São João Baptista, apontando para o céu - é um fragmento de um quadro pintado por Leonardo da Vinci em 1513-16. Aí se condensa uma regra de ouro: vemos e comunicamos através da reconversão de elementos (palavras, imagens, pensamentos) herdados de outros que nos são próximos, mesmo à distância de séculos.

No meio de tudo isto, sinto-me compelido a expor uma pessoalíssima fraqueza: foi preciso esta polémica de coisa nenhuma para ficar a saber que os vigilantes da língua portuguesa também mandaram para o exílio o elegante "bâton" francês, optando pela orgulhosa escrita lusitana de "batom". Decididamente, a cosmética fascina-me.


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