Narrativas virtuais?

Nos EUA, a nova série de Steven Soderbergh, Mosaic, surge associada a uma aplicação que permite acompanhá-la a partir das ações de uma determinada personagem. Embora não alterando a história que Soderbergh filmou, por essa via virtual é possível encontrar mais cenas, fazer algum ziguezague temporal e aceder a documentos relacionados com as peripécias narradas. Já sabíamos que Soderbergh é um criador que gosta de arriscar, não apenas nos modos de encenação, mas também através da integração de novos instrumentos de trabalho proporcionados pela evolução tecnológica - desde o filme Full Frontal (2002), ele foi mesmo um dos pioneiros na utilização de câmaras digitais. Ainda assim, há uma pergunta, entre a sedução e o ceticismo, que importa formular: como encarar este "progresso" narrativo? Seria precipitado fazer generalizações a partir de um caso tão particular. O certo é que estamos perante uma contaminação da narrativa fílmica (cinematográfica ou televisiva) por dispositivos que provêm dos jogos de vídeo. Por isso mesmo, surge uma dúvida pedagógica: o espectador que utiliza a aplicação de Mosaic ainda se interessa pela história que lhe está a ser contada ou limita-se a cultivar um fascínio, efémero e pueril, pelo poder associado aos botões do seu telemóvel ou às teclas do seu computador?Não está em causa, entenda-se, que possam nascer diferentes linguagens através da colisão mais ou menos delirante de novas técnicas. Resta saber o que é que isso ainda tem que ver com cinema (ou mesmo televisão). Se alguns espectadores do futuro quiserem (e puderem) ver Taxi Driver criando as suas próprias respostas ao diálogo de Robert De Niro frente ao espelho, o mínimo que se pode dizer é que esses espectadores já não se interessam por cinema...

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