Donald Trump não é a excepção

De que imagens se está a fazer a campanha eleitoral nos EUA? Fazendo o balanço do último debate televisivo entre os candidatos republicanos, a Time (26 fev.) publicava um artigo de título esclarecedor: "Por que Donald Trump não pode perder". E o texto reconhecia que, mesmo as acusações mais graves formuladas por Marco Rubio (fraudes bancárias, contratação de imigrantes ilegais), parecem apenas fazer ricochete no estilo ligeiro, mas agressivo, do multimilionário.

Na revista Rolling Stone (24 fev.), o analista político Matt Taibbi já sublinhara o modo como a postura de Trump foi perversamente acolhida pelo espaço mediático americano - e como esse espaço se confunde com a própria cena política. No artigo "Como a América tornou Donald Trump imparável", Taibbi destaca o modo como Trump lida com os incidentes que se possam manifestar em debates ou comícios, revertendo-os, através de táticas anedóticas, em seu favor.

Trata-se de uma verdadeira máquina de populismo transfigurada em "espetáculo de variedades". Uma vez, o candidato detetou na multidão um seu imitador; depois de dizer que esperava que ele estivesse a fazer muito dinheiro, Trump virou-se para a sua mulher, a ex-modelo eslovena Melania Knauss, e perguntou: "Melania, eras capaz de casar com aquele tipo?". Além do mais, Trump já instruiu as suas multidões no sentido de lidarem com eventuais provocadores (que têm aparecido, é um facto), rodeando-os e gritando: "Trump! Trump! Trump!" (até à chegada da segurança). O articulista da Rolling Stone considera que o universo de Trump se parece com os shows televisivos de Jerry Springer, transfigurando qualquer facto ou personagem em motivo de espetacular chacota.

A política foi colonizada pelas linguagens televisivas

É cómodo pensar que tudo o que há em Trump, desde a ostentação da riqueza até ao caricatural corte de cabelo, o torna uma exceção no mundo global da política. É desse modo, aliás, que a sua imagem tem sido tratada pela mais nobre mentalidade liberal da televisão americana (por exemplo, no trabalho do talentoso Jimmy Fallon, em The Tonight Show). Tal visão corre o risco de passar ao lado de um dado sistematicamente ignorado pela maioria dos analistas políticos (também em Portugal): Trump é a regra, não a exceção. O exercício contemporâneo da política tornou-se predominantemente televisivo, muitas vezes integrando as lingua- gens mais estereotipadas e infantis da própria televisão.

Em boa verdade, o cinema (americano) há muito nos alertou para a colonização televisiva da política e respetivos valores. Recorde-se esse filme extraordinário que é Bulworth (1998), de e com Warren Beatty, acompanhando, precisamente, a saga patética de um líder sugado pelas práticas mais simplistas do pequeno ecrã. Quem se lembra dele? Muitos reduzirão Beatty à imagem tabloide do "conquistador" de mulheres... Desconhecem-no como um dos mais brilhantes cineastas dos últimos 40 anos da história de Hollywood.

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