Dois cineastas resistentes

Apichatpong Weerasethakul e Joaquim Sapinho. Um tailandês, um português. Dois cineastas uniram-se para criar a exposição Liquid Skin, patente na Sala das Caldeiras do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), até 24 de abril. Aliás, a simples designação de "exposição" é discutível, no sentido em que o fascínio da arte passa sempre pela capacidade de desafiar as regras comuns da nossa perceção.

O aproveitamento da imponente estrutura das caldeiras, seus recantos, escadas e tubagens expressionistas apela à noção de "instalação", embora transcendendo-a. Mas os materiais específicos da exposição são, em última instância, de natureza cinematográfica. Dito de outro modo: os cineastas arquitetaram uma cena audiovisual (e a palavra cena deve ser pronunciada com todo o seu sabor teatral) em que fragmentos de filmes desenham um mapa de singular intimidade.

São filmes, de facto, eminentemente pessoais (no caso de Sapinho, há mesmo imagens de um projeto em desenvolvimento sobre memórias da sua família). São filmes que se oferecem ao visitante/espectador como capítulos incompletos de um ensaio sobre a própria dificuldade, de uma só vez logística e poética, de dar a ver o que pertence aos domínios mais pudicos do viver em comum.

Tudo isto envolve um calculado modo de expor, numa dramaturgia de contagiantes paradoxos. Assim, as imagens de Sapinho combinam a sensação de privacidade com o minimalismo das dimensões, projetando-se nas próprias matérias metálicas do cenário; por sua vez, Apichatpong faz-nos sentir mais pequenos do que as próprias imagens, reforçando a pergunta que circula por todo aquele espaço de mágica transparência: o que é ser (continuar a ser) um espectador?

A pergunta não pode ser reduzida a um mero questionamento interior. Importa mesmo lidar com a sua raiz mais funda - entenda-se: social -, por certo para além de qualquer perfil histórico ou psicológico do próprio espectador. Dito de outro modo: Liquid Skin é também produto deste tempo de delirante proliferação de imagens. O ecrã deixou de ser a marca sagrada do cinema. Para mal dos nossos pecados, desde os omnipresentes telemóveis até às fachadas dos edifícios, tudo pode ser ecrã.

Apichatpong e Sapinho colocam-se numa posição de resistência. A saber: se tudo pode ser ecrã, então cada um de nós deve obrigar-se a não desvalorizar a singularidade do seu olhar, a verdade do seu corpo. São resistentes em nome da arte? Talvez. Acontece que esta é também uma forma nobre de fazer política.

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