Amor de perdição

Ao projetar-nos na década de 1920, a história da transformação de Einar Wegener em Lili Elbe envolve uma dimensão social que importa não escamotear. As intervenções cirúrgicas que lhe permitiram viver como a mulher que sentia ser (no seu corpo de homem) conferiram-lhe o valor simbólico de uma figura pioneira: a afirmação da sua identidade, sendo um marco na história da medicina, é sobretudo um momento de cristalina liberdade.Dito isto, creio que importa evitar uma leitura "panfletária" que, aliás, nem sequer é favorecida pela delicadeza com que o filme de Tom Hooper trata a sua personagem central. Mérito, antes de tudo o mais, do argumento assinado por Lucinda Coxon, observando a transformação de Einar em Lili não apenas como uma pessoalíssima odisseia, mas sobretudo como uma sublime história de amor. Isto porque, no plano narrativo, tudo o que acontece com Einar/Lili, longe de ser uma tragédia solitária, passa pelas convulsões que emergem no olhar de Gerda, sua mulher. Ou ainda: como amar aquele homem que, afinal, é uma mulher?Nesta perspetiva, A Rapariga Dinamarquesa é o mais "lacaniano" dos filmes. Não por qualquer caução teórica, entenda-se. Apenas porque o pensamento (psicanalítico, neste caso) não existe como emblema de uma autoridade intocável, antes para tentar lidar com a infinita complexidade das relações humanas. Jacques Lacan, justamente, numa das suas máximas mais austeras, e também mais perturbantes, lembra: "O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer." E não é das menores maravilhas deste filme que Eddie Redmayne (Einar/Lili) e Alicia Vikander (Gerda) saibam representar essa sublime incompatibilidade como uma experiência de todos os limites, quer dizer, daquilo que, no amor, obriga cada um a perder-se no desejo do outro.

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