A moral da história segundo Tati

Quando recordamos o cinema francês pré-Maio 68, deparamos sempre com alguns títulos da filmografia de Jean-Luc Godard - com destaque para Fim de Semana (1967) - a que, muito justamente, foi atribuído um significado premonitório. Aliás, o trabalho godardiano é de tal modo subtil e contundente que um filme como La Chinoise, sobre a influência do pensamento maoista nos estudantes universitários, surge por vezes citado como retrato exemplar dos acontecimentos de Maio 68 quando, na verdade, a sua estreia parisiense ocorreu em agosto de... 1967!

Lembrei-me da pluralidade de tal conjuntura ao deparar com uma das mais notáveis edições que, em tempos recentes, chegaram ao mercado do DVD: nada mais nada menos do que a obra integral de Jacques Tati (1907--1982), isto é, seis longas-metragens - de Há Festa na Aldeia (1949) a Parade (1974) - e sete curtas, realizadas entre 1934 e 1978.

Quando redescobrimos, por exemplo, esse filme genial que é Playtime - Vida Moderna (1967), contemporâneo dos citados filmes de Godard, compreendemos que, ao observar o quotidiano, Tati teve a perceção muito aguda (e também muito crítica) da mudança de valores que corresponde à consagração de um modelo que entrou para a história com o rótulo revelador, porventura equívoco, de "sociedade de consumo".

No seu fino humor, Playtime é mesmo o retrato da compulsiva normalização de comportamentos. Desde a desmontagem dos rituais do consumo propriamente dito, até à homogeneização dos objetos (por exemplo, os executivos vestidos da mesma maneira, com o mesmo tipo de pastas, conduzindo automóveis iguais), Tati expunha um mundo em que a vida em comum já pouco ou nada tem a ver com o lirismo burlesco de As Férias do Sr. Hulot (1953).

Aliás, a personagem de Hulot, que Tati interpretou como o mais cândido dos observadores, ajudando o espectador a percorrer as atribulações da vida social, foi sujeita a uma evolução reveladora. Em O Meu Tio (1958), é ainda, perante o sobrinho, uma espécie de guardião de um modo de vida ligado a uma França "primitiva", resistente à violência normativa da moral consumista; mais tarde, em Trafic (1971), o mundo transfigurou-se numa rede de acontecimentos fragmentários e inconsequentes em que tudo se submete à doutrina consumista do automóvel.

E não deixa de ser irónico que a derradeira longa-metragem de Tati, Parade, tenha sido produzida em contexto televisivo (aliás, obedecendo a uma estrutura decalcada de um tradicional programa de "variedades"). Acontece que a herança de Tati envolve também uma metódica demarcação das formatações televisivas, resistindo a qualquer modelo de naturalismo alicerçado na "verosimilhança" dos lugares ou na "psicologia" das personagens. Daí também o fascinante paradoxo das suas narrativas: são bloco-notas da vida social e, ao mesmo tempo, contos morais sobre a dimensão humana e, no limite, a lenta decomposição dos valores humanistas.

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