A herança de Gösta Peterson

Eis uma efeméride que vale a pena reter: no próximo dia 27, completam-se 50 anos sobre a edição de The New York Times Magazine em que surgiu na capa Naomi Sims (ilustrando um portfólio de moda). Para além da austera e intemporal elegância da pose, tal publicação envolveu um fundamental simbolismo jornalístico, artístico e social: pela primeira vez, uma publicação de moda fazia capa com uma modelo de pele negra. Para a história, Sims (falecida em 2009, aos 61 anos) ficou mesmo como a primeira supermodel afro--americana.

Todas estas memórias foram revisitadas esta semana por causa da notícia do falecimento, a 28 de julho, de Gösta Peterson, autor da fotografia de Sims. Mais de três décadas depois da sua publicação, em 2009, seria um dos destaques na exposição do MoMA, The Model as Muse; aliás, Sims surgia noutra capa igualmente histórica, na revista Life de 17 de outubro de 1969 (neste caso, fotografada por Yale Joel).

Gösta Peterson fica quase sempre secundarizado, ou é mesmo omitido, quando se evocam aqueles que, de uma maneira ou de outra, marcaram a evolução das relações entre fotografia e moda. Figuras lendárias como Irving Penn (1917-2009), Helmut Newton (1920-2004) ou Richard Avedon (1923-2004) terão um corpo de trabalho incomparavelmente maior e mais ousado nas suas muitas ramificações criativas. O certo é que Peterson foi um criador capaz de gerar imagens que modificaram as matrizes da moda e, em última instância, a própria perceção social da figura feminina.

A sua proeza mais significativa terá sido a "invenção" de Twiggy. Embora a jovem inglesa (de seu nome verdadeiro Lesley Hornby, nascida em 1949) já estivesse presente nos circuitos europeus da moda, foi em 1967, com a sua chegada aos EUA, que Twiggy se transfigurou num ícone internacional - nesse processo, foi decisiva a sessão de fotografia que realizou com Peterson, historicamente encarada como aquela que consagrou a sua imagem quase andrógina, olhos grandes e cabelos curtos (os sintomas de tal revolução iconográfica tinham sido antecipados no cinema, em 1966, com Blow--up, a obra-prima de Michelangelo Antonioni).

De origem sueca, nascido em Estocolmo a 25 de abril de 1923, Peterson estudou ilustração, começando por trabalhar numa agência publicitária. Por sugestão de um familiar, mudou-se para Nova Iorque em 1948. A curiosidade pela fotografia levou-o a começar a usar a sua câmara para registar cenas de rua, num estilo de "reportagem" que, de alguma maneira, iria contaminar o seu trabalho na moda.

Quando olhamos para as suas imagens - publicadas em revistas como a Elle, Esquire ou Harper"s Bazaar -, podemos observar o modo como nos legou uma herança de dessacralização do próprio espaço público. Tal como Robert Doisneau (1912-1994), na Europa, ou Saul Leiter (1923-2013), nos EUA, além dos fotógrafos já citados, Peterson celebrou a elegância e o charme como elementos do quotidiano. Com ele, a moda existe como ritual democrático.

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