A condição feminina

Já cheira a Óscares... E As Sufragistas está na corrida! Esta é a altura do ano em que o cinismo com que, por vezes, tratamos o cinema americano nos leva a considerar que a Academia de Hollywood vai, por certo, secundarizar alguns filmes admiráveis, valorizando outros apenas por causa da "seriedade" dos respetivos temas... Lembrarão os mais pragmáticos que As Sufragistas não é um produto "made in USA", mas sim britânico, e que a sua eventual visibilidade na temporada de prémios que se avizinha nada tem que ver com isso. Pois bem, cinicamente, lembremos também que nada melhor que a chancela britânica para fazer passar a convenção por génio criativo. Exemplo? Em 2012, esse simpático filme menor que é O Discurso do Rei ganhou contra A Rede Social, o prodigioso retrato do nascimento do Facebook assinado por David Fincher! As Sufragistas é mesmo O Discurso do Rei de 2015. Há coisas piores, convenhamos. Sarah Gavron filma a saga das mulheres em defesa dos seus direitos, no começo do século XX, a partir das convenções do telefilme "histórico", apoiando-se em dois trunfos tradicionais: a dimensão realista da cenografia (afinal de contas, há mesmo um realismo... britânico) e, claro, as qualidades dos atores. Carey Mulligan, que admiramos desde Uma Outra Educação (2009), é mesmo um caso sério de talento e, enfim, Meryl Streep tem um papel "quase" decorativo, mas não nos iremos queixar da presença de tão admirável senhora. O que está em causa é de outra natureza. Ou seja: o retorno de um certo modelo de crónica histórica está a acontecer através das regras menos empolgantes de alguns formatos televisivos. Daí a considerar que As Sufragistas é um "símbolo" da condição feminina no nosso presente, eis um passo simplista que, justamente em nome da história, convém evitar.

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