A arte de bem falar

De que falamos quando falamos de um retrato biográfico? Importa contrariar a facilidade desse lugar-comum televisivo segundo o qual fazer uma biografia é "reconstituir" uma época de acordo com as normas correntes do telefilme, com cenários "naturalistas" e roupas "de época"... É esse, afinal, o sentido vulgar (e vulgarizador) do discurso tecnocrático segundo o qual as televisões deviam fazer mais séries "históricas" para ter mais "cultura"...Escrito por Aaron Sorkin, também um notável argumentista de televisão (Os Homens do Presidente, The Newsroom), Steve Jobs é, em tudo e por tudo, o contrário dessa visão. E não só porque o retrato do lendário homem da Apple está "concentrado" em três momentos que simbolizam a evolução da sua estratégia industrial e, em particular, do próprio conceito de computador. Assistimos também a um verdadeiro processo de revelação que a realização de Danny Boyle, através de um didatismo que tem o seu quê de poético, sustenta como uma discussão sobre o que significa, ou pode significar, o estabelecimento de uma relação humana.Escusado será dizer que a questão da paternidade que Jobs não quer assumir está no centro de tal dinâmica (e não será das menores maravilhas deste prodigioso filme a representação da filha de Jobs em três etapas distintas, com 5, 9 e 19 anos de idade). Admirável é o facto de tudo isso passar pelo labor incessante das palavras. Este é, de facto, um daqueles filmes que desafiam o disparate segundo o qual, normalmente, as personagens falam no "intervalo" das cenas de ação... Nada disso: as palavras são o primeiro e decisivo nível da ação. Porquê? Porque o que distingue o ser humano não é tanto o computador que usa para comunicar com o seu semelhante, mas sim o poder da fala. E os silêncios que o habitam.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG