Os textos iniciais das navegações portuguesas

A palavra Descobrimentos tem estado na crista da polémica nos últimos dias devido à criação de um museu que retrate as navegações portuguesas, daí que a recente edição de dois volumes na coleção Obras Pioneiras, intituladas Primeiros relatos de viagens e descobrimento e Primeiras narrativas de naufrágios.

Estes dois volumes sobre o início das viagens marítimas portuguesas pertencem à coleção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, que soma mais três dezenas de volumes que o Círculo de Leitores está a publicar, numa iniciativa pioneira, como o próprio título indica. De que tratam estes livros? De textos iniciais que não estão disponíveis facilmente para consulta e que agora podem ser lidos por todos. Mesmo que as Primeiras Narrativas de Naufrágios, de Bernardo Gomes de Brito, seja a história trágico-marítima, aqui com os dois tomos reunidos.

Na introdução, o coordenador deste volume explica uma particularidade: o pioneirismo destas narrativas que foram coligidas no século XVIII sob essa designação, como se fosse um bom título de romance. O amplo retrato dos naufrágios, diz António Moniz, integra-se na literatura de viagens. Mais, revela que é um género onde os portugueses foram pioneiros, mesmo que a intenção do texto fosse a de alertar. Sabe-se que o impacto junto dos leitores de então foi enorme a estes doze relatos de tragédias que, considera, "serviram para o reconhecimento de uma memória histórica e identitária nacional".

Esta compilação de relatos de naufrágios resultava de vários textos avulso escritos entre 1552 e 1602 e publicados quase em tempo real (1554 a 1604), que permitiam aos contemporâneos das grandes viagens marítimas perceberem muitos dos perigos que estavam em jogo, como Moniz refere: "à imagem heroica contrapõe--se a anti-heroica da fragilidade, da imperícia e da demência, nas personagens dos relatos coligidos."

É isso que se lê, por exemplo, no relato IV, sobre a viagem das naus Águia e Garça em 1559, uma narrativa que decerto empolgaria os leitores como se pode ver neste parágrafo: "Aquela outra nau se ia perder, e que já não tinha remédio, e que não era razão que eles também se perdessem com ela, que menor era perder-se uma nau que ambas." Se esta parte era menos trágica, outras existem com batalhas como a do galeão Santiago ou o afundamento da nau São Paulo.

O segundo volume contém descrições menos dramáticas, mas permite a descoberta de como tudo começa e continua. É, respetivamente, o caso da reprodução da carta de Bruges do infante D. Pedro, bem como das descrições dos grandes cronistas daquela época: Zurara com a Crónica de Guiné, a Relação da Viagem de Vasco da Gama e o importantíssimo texto de Pero Vaz de Caminha com a Carta sobre a chegada ao Brasil. No primeiro caso, é curiosa a sua intenção, a de explicar o protocolo e o modo de como a delegação portuguesa se deveria comportar, enquanto na segunda conta como em 1434 Gil Eanes se aventurou a mando do infante D. Henrique. Uma viagem que abriu os horizontes mundiais das navegações. O mesmo acontece com a viagem de Vasco da Gama, que permite de algum modo refazer essa travessia por mares nunca visitados, como se verifica com a Carta sobre o achamento do Brasil.

Se a possibilidade de ler estes textos antigos volta agora a ser possível, o tratamento da edição facilita tal leitura, com notas e explicações fundamentais.

Os primeiros relatos de viagens e descobrimento
Vários
Edição Círculo de Leitores
415 páginas

Primeiras narrativas de naufrágios
Vários
Edição Círculo de Leitores
650 páginas

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