De Olham para o mundo na língua menos comum de Ana Cristina Leonardo

O Centro do Mundo é o título do primeiro romance de Ana Cristina Leonardo, que sucede a duas outras experiências literárias em livro, e que é editado na coleção Língua Comum da editora Quetzal. Ora de língua comum pouco tem este livro, o mesmo acontecendo a poucas outras exceções desta coleção onde figura uma reedição de O Que Diz Molero, de Dinis Machado, daí que se possa considerar este primeiro romance um dos mais incomuns da listagem na sua badana direita.

O que faz de O Centro do Mundo uma boa exceção nesta língua tornada demasiado comum é, em primeiro lugar, o registo que a autora encontrou para contar a sua história. Depois, a história que tinha para contar, uma espécie de biografia de um russo que passou pela localidade de Olhão - ou Olham. Chama-se o senhor Boris Skossyreff, homem com vida apropriada a um século como o XX, que executa de forma malabarista várias profissões, estados de alma e paixões, que desfilam pelas duzentas páginas.

Como cozinhar tudo o que o protagonista foi sem temperar mal a escrita seria o grande desafio da autora. O que, após uma leitura que deve ser atenta para não se perderem todas as ligações - muitas delas em rodapés tão divertidos como informativos -, se considera vencido. O Centro do Mundo torna-se um dos mais curiosos exemplos do que a literatura portuguesa ainda pode fazer no ano 2018, quando a inventividade literária anda um pouco de rastos.

Diz-se na contracapa que este romance, "embora centrado na figura do russo, é também uma declaração de amor à cidade branca e cubista". É verdade, mesmo que o leitor nunca deixe de suspirar por mais umas páginas sobre a cidade que seduziu Raul Brandão, entre muitos outros citados na narrativa. Uma antevisão a que a capa transporta, numa transfiguração de uma espécie de moradias de um norte de África travestido em bazares com pouca vida, mas caldeado numa composição com figuras geométricas do sul de Portugal, de onde se des- taca uma figura de homem a olhar para esse centro do mundo mitológico e que permite o encaixar de tantas histórias como as que surgem nestas páginas.

Diz também essa contracapa que o romance se "entretece com a saborosa petite histoire". Verdade, elas saltam que nem as sardinhas que os pescadores de Olham apanham em sucessivas viagens pelo mar, a que está proibida a um Boris desesperado para continuar a sua fuga. Esse emperrar do destino é suavizado pelas descrições do convívio com ilustres figuras que moram naquele recanto algarvio, tão perdidas no século como ele, ou dos que fugiram logo que puderam desta terra onde as fábricas fecharam com o fim da guerra, até do presidente em passo apressado mal é deposto; mas também pelas figuras menores que recheiam os capítulos com atribulações bem inferiores do que aquelas que desvendam o passado do biografado.

Apesar de o fim do livro chegar antes do tempo, o quinteto de anexos que se seguem satisfazem um pouco a grande curiosidade que ainda se encontra no leitor, designadamente o anexo 4, que preenchem os vazios desta viagem literária a modos que biográfica. Tal como Boris é rei por uma semana, também este romance o pode ser para os leitores e assim ficarem livres para saírem por alguns dias da língua comum e entusiasmarem-se com outros degraus imaginativos na literatura e na leitura. Até porque este trabalho da autora presta-se a isso.

O Centro do Mundo
Ana Cristina Leonardo
Editora Quetzal
200 páginas
PVP: 16,60 euros

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