Como ser famoso por investigar a história do bacalhau

Havia um tempo em que as livrarias tinham uma boa secção de literatura de viagens e, para quem gostava do género, era um prazer percorrer as estantes com esses livros. Era o caso de uma livraria em Londres, a Waterstones, que teria cem metros de comprimento de lombadas atraentes sobre locais que mereciam uma viagem. No entanto, pelo meio dos milhares de volumes existiam "coisas" mal catalogadas que não eram destinos mas boas viagens a certos temas. Foi o caso de um livro que nunca pensara comprar, Bacalhau: Uma Biografia do Peixe que Mudou o Mundo.

Ao ver a lombada achei que era mais um assunto que não interessaria, mas questionei-me sobre a razão que o senhor Mark Kurlansky teria para escrever três centenas de páginas sobre o fiel amigo. Ele que não era português ou norueguês, antes um norte-americano formado em Artes e correspondente de vários jornais internacionais...

Folhei o Bacalhau - que já foi traduzido para mais de 15 línguas, inclusive para o português - e percebi porquê. Kurlansky contava a história deste peixe ao longo dos séculos e explicava como contribuíra para as mudanças nos regimes alimentares, ou seja, como muita gente deixou de passar fome. Mas o que definitivamente levou a adquirir um exemplar foi o contar da história do bicho, principalmente porque desconhecia que o futuro do bacalhau tinha sido garantido pelos bascos. Foi no País Basco que há mais de 700 anos os pescadores inventaram as formas de comer o peixe que cresce em águas geladas e que salgado se conserva muito tempo sem se deteriorar. Uma utilidade que já fora apreendida pelos vikings séculos antes, uma espécie que chegou a provocar guerras comerciais - as chamadas guerras do bacalhau a partir do século XVI - e a criar em Portugal uma frota bacalhoeira que fez viver aventuras a pessoas que nunca imaginaram o que era rumar aos mares do norte gelados e pescar à linha estes peixes.

Mais tarde vim a saber que o livro Bacalhau tinha mudado a vida do autor, pois o País Basco tornou-o embaixador honorário e a Sociedade Americana dos Estudos Bascos entronizou-o no seu Hall of Fame. Cinco anos depois, talvez levado pelos conhecimentos adquiridos pelas técnicas de salgar o bacalhau, Kurlansky publicou uma outra investigação, Sal - Uma História Mundial. Mas essa já é outra história!

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