Cem anos depois, igual só mesmo um crash como o de 1929

Estávamos no primeiro dia de 1920 e ninguém sabia o que iria acontecer nessa década. Cem anos depois, repete-se a ignorância. Ou seja, a cronologia dos acontecimentos da história está sempre em aberto e a humanidade ainda longe de ser um programa de computador. Nada melhor para quem gosta de viver a vida de um mundo aventuroso, coisa que dois portugueses fizeram entre 1920 e 1929. A saber: os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que resolveram voar sobre o Atlântico entre Lisboa e o Rio de Janeiro. A viagem não foi fácil e o relato que se tem dela, se bem que muitas vezes pareça que foi partir e chegar, representou uma grande aventura e recolha de conhecimentos. Tanto que quando Charles Lindbergh fez o mesmo - pelo Atlântico norte, em 1927 -, agradeceu o que os dois portugueses tinham feito. Mesmo que esses cinco anos tenham proporcionado ao norte-americano uma evolução nos aviões e na navegação que lhe permitiram cumprir a distância numa única viagem.

É aqui que a aventura de Coutinho e Cabral se diferencia bastante: partem às 7.00 de 30 de março de 1922 num avião com motores Rolls-Royce e um sextante até às Canárias. Dia 5 de abril deixam a ilha e vão até Cabo Verde, permanecendo duas semanas a reparar os flutuadores do avião. Daí voaram até aos rochedos de São Pedro e São Paulo, onde uma tempestade lhes destruiu uma boa parte do Fairey F III-D MkII. Num novo avião, os dois portugueses partiram para o Recife, descendo o litoral brasileiro até ao Rio de Janeiro, aonde chegaram a 17 de junho. Total da aventura: 79 dias, mas apenas 62 horas e 26 minutos a voar.

Lindbergh optou por fazer em 1927 um voo solitário entre os EUA e Paris no The Spirit of Saint Louis. Demorou 33 horas e 31 minutos e, ao aterrar, viveu o pior momento da viagem: a multidão rodeou-o e quase morria sufocado. Disso se livraram Sacadura Cabral e Gago Coutinho, mesmo que os brasileiros tenham entrado em delírio com o feito e lhes proporcionassem receções inimagináveis.

E no ano que começa dentro de dias haverá aventuras destas? Ou viveremos segundo as regras dos nossos tempos o que aquela década portuguesa tem em fartura: agitação política (só presidentes da República foram Teixeira Gomes, Bernardino Machado, Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa e Carmona). Provável mesmo é uma nova crise económica e financeira, e nisso os anos 1920 foram inovadores: o crash de 1929...

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