O NASCIMENTO DO EURO

O euro fez 10 dez anos no passado dia 1 de Janeiro. Com a crise financeira global a efeméride passou despercebida, mas merece celebração. Uma década de funcionamento mostrou o sucesso da maior e mais complexa experiência monetária da história do mundo. Um livro recente de um dos protagonistas marca a comemoração.

Otmar Issing foi o alemão no Conselho Executivo desde o nascimento do Banco Central Europeu até 2006. Isto bastava para lhe dar influência decisiva. Além disso, este ilustre académico, membro do Conselho do banco central alemão de 1990 a 1998, ocupou no BCE responsabilidades cruciais. Único elemento da equipa inicial que cumpriu o mandato de oito anos, dirigiu os pelouros da Economia e da Investigação, liderando a concepção estratégica da política monetária. Naturalmente caberia à Alemanha esse lugar, que Issing desempenhou de forma elegante e exemplar.

O volume The Birth of the Euro (Cambridge University Press, 2008) é um documento notável, acessível e profundo, pedagógico e provocador. Mais pequeno e focalizado, está ao nível das memórias de outra testemunha central da época, Alan Greenspan (The Age of Turbulence, Allen Lane, 2007; A Era da Turbulência, Presença). Na economia política actual, estas são duas das obras mais marcantes, pois o americano e o alemão presidiram, de lados opostos, a um período dourado da economia mundial. Ambos os textos foram escritos antes da presente crise, que os mesquinhos gostam de atribuir aos gigantes anteriores. Mas a sua obra perdurará.

Como o de Greenspan, o pequeno volume de Issing mostra disponibilidade para explicar os detalhes que interessam ao cidadão comum. Descrevendo a estrutura institucional, métodos de intervenção e dilemas políticos, dá ao leitor a sensação de se sentar no centro da decisão. Além disso, sem cair em formulações técnicas, traça com rigor as opções, hesitações e polémicas vividas naqueles momentos históricos. Nenhuma das terríveis controvérsias que perturbaram os anos iniciais do euro está ausente, com o banqueiro a responder-lhes de forma cândida, profunda e compreensível.

Apesar da sua atitude ser naturalmente científica, o autor não esconde que "a economia não pode fornecer uma resposta clara e conclusiva que liberte o banco central da necessidade de decidir por si mesmo (...) a actividade do banco central é uma 'arte'" (185). Como em Greenspan, fica claro o dramatismo dessa "arte".

O livro não foge a polémicas. Aludindo a Sarkozy afirma: "Os políticos que mais vociferam por um 'governo económico europeu' são os mesmos que esquecem a dimensão europeia assim que os seus interesses nacionais estão em causa" (203). Noutro local assegura que "o princípio da subsidiariedade em grande parte existe apenas no papel" (234). O funcionamento da União Europeia é avaliado de forma segura mas realista.

Podemos dizer que, sem o referir, Portugal constitui o exemplo por excelência das duas conclusões principais do livro. Primeiro, o balanço triunfante de dez anos de euro. O autor não se cansa de sublinhar o enorme sucesso conseguido, apesar da multidão de cépticos iniciais, que incluía referências como Milton Friedman (p. 50): "Com o estabelecimento do mercado único, a integração económica está em princípio completa (...) o sucesso do euro está acima de qualquer dúvida" (240), juízo aliás confirmado no tumulto da recente crise. Ora não há dúvida que a convergência realizada pelo nosso país nos anos 90 é a mais notável dos membros originais, pois ele era o que estava mais longe do objectivo.

Em segundo lugar o texto identifica "duas fontes de vulnerabilidade. Primeiro (...) as violações do Pacto de Estabilidade e o incumprimento das promessas de tornar os mercados mais flexíveis. Segundo, a 'orientação social' de muitos esforços para maior integração política que se desvia da busca de uma política monetária única" (241). Também aqui as nossas desorientação orçamental e rigidez laboral são bem o paradigma dos males que afligem a Europa nos alvoroços da crise financeira. |

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