Ódio à universidade, paixão pelo diploma

Jair Bolsonaro disse, certa vez, que os alunos das universidades brasileiras "fazem tudo, menos estudar".

Noutra ocasião, durante viagem ao seu bem-amado e bem armado Texas, chamou os estudantes que protestavam nas ruas do Brasil a favor do ensino público de "idiotas úteis" e de "massa de manobra" para delírio da massa de manobra de idiotas úteis que o apoia.

Bolsonaro tinha intervindo, até metade do seu mandato, em pelo menos sete eleições para reitorias de universidades públicas, ignorando votos de professores, alunos e funcionários. E durante a pandemia ainda editou medida provisória que dá poder absoluto ao ministro da educação na escolha dos reitores.

Por falar em ministro da educação, o grotesco ex-titular da pasta Abraham Weintraub, antes de fugir para os EUA com medo de um julgamento no Supremo por ter ofendido os juízes da corte, disse haver "plantações extensivas de maconha [canabis]" nas universidades.

O governo Bolsonaro e os seus apoiantes fazem questão de mostrar desprezo diário pela ciência, pelos intelectuais, pelo estudo, pelo saber, pelo conhecimento, pela cultura, pelos livros. E pela universidade.

E, no entanto, no seu íntimo, veneram-na.

Senão vejamos: Ricardo Salles, que ganhou em sondagens recentes o concorrido prémio de pior ministro do governo e cujo nome é sinónimo nas revistas científicas mundo afora de crime ambiental, disse que estudou em Yale, na assinatura de artigo no jornal Folha de S. Paulo e em entrevistas televisivas.

Mas Yale nunca soube. "Erro da minha assessoria", justificou Salles, para quem um líder, em vez de assumi-las, deve atirar sempre as culpas para os subordinados.

Damares Alves, por outro lado, apresenta-se em palestras e seminários como "mestre em educação, em direito constitucional e em direito de família".

Por qual instituição de ensino? Pela Bíblia. "Diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico", justificou a própria.

Por falar em justificações malucas, o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, bolsonarista ferrenho até a família presidencial romper com ele, tem uma capaz de concorrer com a de Damares.

Depois de adicionar ao currículo um intercâmbio em Harvard, universidade norte-americana onde jamais colocou os pés, Witzel, um nado morto político afastado do cargo por corrupção dois anos depois de eleito, explicou que não cometeu nenhum erro porque projetou estudar em Harvard - não o fez, apenas, por falta de tempo.

Com doutorado na Universidade de Rosário e pós-doutorado na Universidade de Wuppertal, Carlos Decotelli só não substituiu o fugitivo Weintraub na Educação porque, às vésperas da tomada de posse, se descobriu que não tinha doutorado na Universidade de Rosário nem pós-doutorado na Universidade de Wuppertal.

Aprendeu a lição de que não se vitamina currículos? Não: dias depois, já incluía no CV o cargo de ministro da educação do Brasil que nunca chegou a ter.

O caso mais recente de currículo inchado é o de Kássio Marques, o juiz escolhido por Bolsonaro para a vaga aberta no Supremo. O presidente nem era muito exigente nos requisitos: primeiro, quis alguém que fosse "terrivelmente evangélico"; depois, por razões de tática eleitoral, abdicou daquela condição e passou a procurar alguém "capaz de beber cerveja" com ele "no fim de semana".

Presume-se que o juiz Kássio já satisfizesse a premissa etílica mas, além disso, ainda apresentou canudos de universidades na Corunha e em Messina que as duas instituições de ensino rapidamente desmentiram. O mestrado na lisboeta UAL também tinha longos trechos de outros autores, sem citação.

Currículos inflados no estrangeiro, cursos em Harvard por pensamento, mestrados concluídos ao ler a Bíblia, assessores que por sua alta recreação inventam frequências universitárias dos chefes...

A julgar pelos exemplos destes bolsonaristas acima, talvez por uma vez Bolsonaro tenha razão quando afirma que os estudantes universitários brasileiros "fazem tudo menos estudar".

Correspondente em São Paulo

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