O campeonato de Bolsonaro

O emocionante Brasileirão de 2020 tem vindo a ser dominado, grosso modo, por três clubes: o Atlético Mineiro, o Internacional e o Flamengo. Como os dois últimos trocaram de treinador inesperadamente nas últimas horas, talvez o Atlético, que mantém o seu, o competente argentino Jorge Sampaoli, ganhe uma vantagem competitiva importante.

No entanto, o Galo, como é chamado o popular clube de Belo Horizonte, tem um calcanhar de Aquiles: os jogos fora.

Vence, e muito, em casa - conquistou 26 dos seus 35 pontos totais no Estádio Independência, ou seja, tem 86,6% de aproveitamento.

Entretanto, apesar de ter goleado o Fla no Maracanã no fim de semana passado, sofre longe do seu reduto - tem apenas nove pontos ganhos em 27 possíveis, o 11.º registo entre todos os 20 participantes na Série A.

Os observadores mais experientes, habituados a ver os grandes campeões do passado serem autoritários também na condição de visitantes, sentenciam: ou o Atlético melhora os seus anónimos registos nesse particular, ou não terá condições de lutar por um título que lhe escapa teimosamente desde 1971.

Mas por que carga de água esta coluna, que semana sim, semana sim critica Jair Bolsonaro, desta vez se dedica ao futebol?, perguntar-se-á, e bem, o leitor.

Em primeiro lugar, para respirar um bocadinho: uma das consequências mais dramáticas de se viver num país, como o Brasil, transitoriamente transformado em bolsonaristão e entregue a um governante obtuso, preconceituoso, bárbaro, falso moralista, esdrúxulo, boçal, sinistro, retrógrado, grosseiro e incompetente, é estarmos moralmente impedidos, pelo dever da denúncia, de falar de temas, como o futebol, amenos e belos.

Depois, porque o tema das vitórias fora e dentro de casa, aparentemente só futebolístico, está, afinal, na ordem do dia da política.

Afinal, ao contrário do Galo, que no sábado até obteve aquela sonora vitória no campo do Fla, o presidente amargava mais ou menos à mesma hora um novo desaire fora da sua casa - nomeadamente, na Casa Branca.

Com o seu ideal de governação, Donald Trump, derrotado, o Brasil passa, num estalar de dedos, de marginal a pária completo na questão ambiental ou no combate à pandemia, só para dar dois exemplos.

Foi um golpe mais duro ainda para o Planalto do que aquele sofrido quando Maurício Macri, em quem Bolsonaro depositou todas as fichas, acabou derrotado logo à primeira volta por Alberto Fernández (e Cristina Kirchner) nas eleições da vizinha Argentina.

Num ato simbólico, a propósito, Fernández conduziu esta semana o exilado Evo Morales à sua Bolívia, país onde Luis Arce, aliado de Morales, ganhou também à primeira volta as eleições deste ano - Luis Fernando Camacho, um ponta de lança de extrema-direita preferido do Governo brasileiro, ficou em terceiro lugar com um quarto dos votos do vencedor.

Já antes, Matteo Salvini, na Itália, e Santi Abascal, em Espanha, dois políticos com quem o deputado Eduardo Bolsonaro se apressou a tirar sorridentes selfies, sofreram duras derrotas - o primeiro caiu do Governo e perdeu as eleições regionais, o segundo foi o protagonista da mais contundente das derrotas em moções de censura na história do seu país.

Há ainda o caso do Chile, onde a Constituição dos tempos de outra referência de Bolsonaro, o ditador Pinochet, será jogada no lixo para dar lugar a uma nova, mais democrática, mais iluminada, mais justa.

Como o Atlético Mineiro não soma só derrotas fora de casa, Bolsonaro também pôde saborear um empate: Netanyahu, com quem vem trocando afagos, continua primeiro-ministro mas tendo de conviver com o principal adversário no Governo e com múltiplas acusações de corrupção nos tribunais.

O Galo de Jorge Sampaoli, entretanto, é poderoso em casa.

Neste domingo, nas eleições municipais, se verá o que vale Bolsonaro, que apoia Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, e Celso Russomanno, em São Paulo, ambos candidatos do partido controlado pela IURD, a jogar perante a sua torcida.

Correspondente em São Paulo

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