Brasil: o MNE de Bolsonaro que segue Trump e cita Pessoa

"Em 13 anos e meio de vida institucional nos afastámos do dia-a-dia do povo". Palavras de José Dirceu, fundador do PT, chefe da Casa Civil de Lula da Silva e um dos réus nos processos Mensalão e Lava-Jacto, pelos quais foi condenado a mais de trinta anos de prisão. O comentário é do passado dia 12, por ocasião do lançamento do seu livro de memórias, escrito no tempo de prisão que cumpriu até ter sido libertado em Junho, por decisão do Supremo Tribunal Federal, ficando a aguardar em liberdade o trânsito em julgado da sentença de que recorreu. E além desta autocrítica, Dirceu não deixou também de reconhecer que o governo de Bolsonaro tinha base social de apoio, legitimidade e tempo para governar.

De facto, a mês e meio do início do mandato e dando voz à sua "base social de apoio" - correntes nacionalistas, religiosas e liberais - o presidente eleito não perdeu tempo e já tem preenchidos os lugares mais importantes do Executivo.

Com uma presença significativa dos militares na Segurança, na Inteligência, na Defesa, na Ciência e nos Transportes e Comunicações, com nomes também importantes nas áreas económicas, capitaneadas pelo liberal Paulo Guedes, e com Sérgio Moro à frente de um superministério da Justiça, dir-se-ia que o programa do novo governo estava já bem definido. Mas só com a recente nomeação do embaixador Ernesto Fraga Araújo para Ministro dos Negócios Estrangeiros se tornou claro o futuro pensamento ideológico e político de Brasília, no sentido de um alinhamento com os Estados Unidos e com as teses do Presidente norte-americano sobre os valores e a natureza da sociedade internacional.

Trata-se de um diplomata de carreira, de 51 anos, com um pensamento político estruturado. Actual chefe do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos no Itamaraty, Fraga Araújo proclama-se nacionalista e defensor do Ocidente, o Ocidente mais espiritual do que material da civilização greco-romana e cristã.

Num artigo "Trump e o Ocidente", publicado na revista Cadernos de Política Exterior, identifica-se com aquilo a que chama pan-nacionalismo, um nacionalismo fundado no respeito pelos outros nacionalismos, e afirma-se religioso, conservador, anti-globalista e céptico quanto aos valores mundialistas de indiferenciação e diluição das fronteiras e de fluidez generalizada do "género humano". Ou seja, declara-se inimigo do internacionalismo militante e da ideologia da "correcção política", que vê como uma excrescência do marxismo cultural e do ultraliberalismo plutocrático.

Para grande escândalo da esquerda, a que Celso Amorim, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Lula da Silva, já deu voz, o novo chanceler brasileiro não hesita em secundar a cosmovisão do presidente Donald Trump. E de o fazer com base na tradição heleno-cristã. Para Fraga Araújo, Trump pode hoje ser o único estadista ocidental "que entende o jogo e está disposto a jogá-lo", que percebe o que está em risco e que quer resgatar uma civilização ocidental internamente demonizada e esvaziada:

"O certo é que Trump desafia nossa maneira usual de pensar. Aceitemos o desafio. Não nos satisfaçamos com uma caricatura, com as matérias de 30 segundos que aparecem no Jornal Nacional e tentam sempre mostrar um Trump desconexo, arbitrário e caótico".

Para Fraga Araújo - como para Trump - o Ocidente, que deve ser "concebido como uma comunidade de nações", está "mortalmente ameaçado desde o interior e somente sobreviverá se recuperar o seu espírito".

A ofensiva cultural da esquerda contra a nação recorreu ao estratagema de assimilar e reduzir a nação e o nacionalismo à experiência hitleriana, pretendendo desclassificá-la com um processo de damnatio memoriae. No seu blogue Metapolítica 17, Araújo vem redimir a ideia de Nação, que distingue de Estado, embora considere que o globalismo é inimigo de ambos. Quanto ao globalismo, define-o como um mero "filho do consumismo."

O novo MNE cita ainda a passagem do discurso de Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, em que o Presidente norte-americano diz que, "como Presidente dos Estados Unidos" colocará "sempre a América primeiro, do mesmo modo que vocês, líderes dos vossos países, vão sempre colocar os vossos países primeiro. Todos os líderes responsáveis têm a obrigação de servir os seus próprios cidadãos e o Estado-Nação permanece o melhor veículo para elevar a condição humana."

Tudo isso seria suportável se este novo chefe do Itamaraty, defensor do "indefensável Trump", pudesse ser descartado pelas "forças progressistas" como "mais um grunho". Mas dá-se o infeliz acaso de Fraga Araújo ser um homem de cultura humanista, um homem que filia o patriotismo, o amor da pátria, da família, da identidade, nos gregos que enfrentaram o Império Persa por amor à liberdade da pátria, nos mesmos gregos que Ésquilo, que fora um deles, evocava em Os Persas.

Essa longa tradição do Ocidente, helénica e cristã, está hoje sob fogos diversos, que vão do capitalismo financeiro, a plutocracia cega e surda dos fundos anónimos de biliões, ao libertarismo radical. Uns não querem que as nações tenham fronteiras, outros não querem que os humanos tenham género. Tudo o que é substancialmente definido é para abolir em nome de uma racionalidade pós-moderna que odeia limites - naturais ou divinos.

O futuro MNE do Brasil, além de defender Trump, também não hesita em citar Fernando Pessoa, na Mensagem, quando o poeta escreve "as nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós", lembrando que Pessoa compôs A Mensagem numa época de decadência do Ocidente, que coincidiu com o grande desencanto, nacional e civilizacional, em relação ao império material e à morte do espírito: "A sua reacção" - escreve Fraga Araújo sobre Pessoa - "é justamente a tentativa genial de recuperar ou reinventar o nacionalismo mítico".

É reconfortante ler um Ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil que, em vez de citar Foucault e Barthes e de repetir banalidades sobre globalização, cita Ésquilo e Pessoa, fala de reinvenção da nação, e se refere a Portugal e à herança portuguesa sem se centrar no "saque" e no "colonialismo"; um futuro ministro que, em vez de se extasiar perante os jogos de prestidigitação retórica da ideologia que, no Brasil e um pouco por todo o mundo, se apropriou da academia, da cultura e do pensamento político, resolve integrar o governo Bolsonaro e defender Trump. Porquê? Ele explica: é que

"Donald Trump - esse bilionário com ternos um pouco largos demais, incorporador de cassinos e clubes de golfe - parece ter hoje uma visão do mundo que ultrapassa em muitas léguas, em profundidade e extensão, as visões da elite hiperintelectualizada e cosmopolita que o despreza"

Mais Notícias