Os problemas não acabaram

Em poucos dias, parece que os problemas mais urgentes do mundo se resolveram. Vai haver vacina, não vai haver Trump, há de haver Brexit mas com amizade, houve acordo entre deputados e governos em Bruxelas e vai haver orçamento e plano de recuperação europeus, e até os mercados financeiros andam excitados. Tudo isso é potencialmente verdade, mas não se batam demasiadas palmas. Os problemas que havia antes da covid e os que a pandemia gerou não desapareceram. E vêm aí novos.

A vacina não acontecerá amanhã, e ainda que seja um enorme alívio e permita regressar à prioridade à economia, ficaram demasiadas marcas. Como num terramoto, só depois de removidos os escombros perceberemos a dimensão do estrago. Não é ser catastrofista, é ver os números e o que está congelado. E a diferença entre os que desesperadamente necessitam do dinheiro da Europa e os que têm, além disso, um bolso próprio. A divergência corre o risco de crescer.

A saída de cena de Trump pode trazer algum sossego à relação transatlântica, mas não vamos voltar aos anos de 1990 de paz, concórdia e triunfo das democracias liberais sobre o mundo e a narrativa global. Os europeus vão continuar a ter de assumir cada vez mais responsabilidades pela sua segurança, e isso tem custos. Em dinheiro, em meios, em homens e em relações com países terceiros.

Lá fora, a Turquia, a Rússia, a pressão migratória e, sobretudo, a China não desapareceram de cena.

Cá dentro, os populismos, os opositores à ordem liberal global radicais de esquerda e de direita, e o terrorismo caseiro ou importado, não desaparecerão amanhã. Ao contrário de Merkel, que deixa alguns vazios à saída: na relação com o Leste da Europa, que conhecia e sabia ser importante acomodar, como nenhum candidato a sucessor conhece ou, eventualmente, percebe; mas também no equilíbrio com Paris (onde foi perdendo força nos últimos tempos). Uma Europa responsável pelo seu destino, autónoma mas aliada com os Estados Unidos na defesa do mundo livre é diferente de uma Europa que acha que a China é concorrente e a América quase tanto.

O acordo para um Brexit macio parece estar em andamento. A entrada de Biden, a saída de Cummings e a pressão da realidade podem ajudar, mas a ferida está cá. Uma Europa sem o Reino Unido é mais frágil, menos aberta ao mundo e menos marítima. Não temos absolutamente nada a ganhar com esta mudança.

Finalmente, a economia. Em plena queda livre, foi mostrada uma almofada europeia igual para todos (proporcional, vá). É um para-choques que faz muita falta, mas no fim, quando alguns países europeus abrirem os para-quedas e outros não, vamos ver a diferença do estrago. Não os podemos culpar a eles (não só porque não resolve nada, mas sobretudo porque não é sério), mas temos de evitar que, em cima da diferente capacidade financeira, as decisões sobre regras também criem desequilíbrios entre mercados, empresas e Estados.

Portugal vai presidir à União Europeia num tempo que pode ser de esperança. Vai ser preciso realismo, para não ser apenas uma festa.

Consultor em assuntos europeus

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