O vídeo viral atacou de novo

Foi há dias (18 de janeiro, sexta passada) e começo por pedir desculpa por comentar coisa tão antiga. Eu sei, agora é: acontece, dispara-se! Atraso confessado, prossigo. Foi no Lincoln Memorial, a esplanada em Washington que celebra o grande americano. Há vídeos - eles que são um meio e, nesta história como agora em tantas, logo passam a sujeito do assunto.

Quatro negros de longas e farfalhudas barbas manifestavam-se. O cajado que cada um empunhava dizia mais rapidamente do programa deles do que as palavras que um gritava e um cartaz expunha: eles eram Hebreus Israelitas. O cajado parecia capaz de abrir o mar até à Terra Prometida. Na esplanada enorme, a solidão do quarteto judaico afro-americano expunha demasiado a sua bizarria mas felizmente para eles chegou um grupo de algumas dezenas de estudantes de um colégio católico do Kentucky. Vinham manifestar-se contra o aborto e alguns traziam boné vermelho de Trump com o slogan Make America Great Again.

O porta-voz dos negros pôs-se a invetivar os recém-chegados com a ira de Moisés (pelo menos, na versão de Charlton Heston em Exodus). Os colegiais não encontraram melhor do que responder-lhes com uma sessão de haka, a dança da equipa nacional neozelandesa de râguebi. Como essa equipa se chama All Blacks, Lincoln, sentado e espreitando atrás das colunas do seu monumento, devia estar embevecido ao ver as suas etnias entrecruzando-se culturalmente, tantos anos depois da Guerra Civil.

E ainda não tinha visto tudo. Eis que Nathan Phillips, um índio americano, entra em cena. Olho de Ferro (1822-1888) foi um dos últimos chefes dos Omaha a ir a Washington para negociar as terras dos índios com o presidente Franklin Pierce, em 1854, pouco antes de Lincoln ser eleito - e a coisa correu mal, como a todos os índios. Nada rancoroso, um século depois, o índio Nathan Phillips fez a guerra no Vietname como marine e, na sexta-feira passada, interpôs-se na esplanada do Lincoln Memorial durante o conflito entre os seus compatriotas, caras-pálidas católicos e negros judeus.

Com as suas vestes da tribo Omaha (eles agora vivem lá para cima, para o Nebraska gelado), o velho Nathan Phillips, de óculos, cara cavada e desdentado, lançou as suas canções e orações tristes. E foi aí que o vídeo o apanhou. Naquele dia e ali, já tinha havido mais vídeos - com os tais confrontos verbais judaico-negro-branco-católico - mas vídeo com mais potencial de vídeo, isto é, viral, foi este frente-a frente: o índio Phillips e o adolescente Nick Sandmann, com o boné trumpiano.

Nick era um dos colegiais, cara de garoto e (suspeito eu) um bocado assustado com a ladainha do outro. Armou um sorriso, fez pose - se no colégio do Kentucky se ensinasse Cyrano de Bergerac o garoto saberia que teve panache - e ficou assim, a olhar o índio. Pronto, foi isso. Isso, que se tornou abertura nas televisões americanas. E debates na CNN. E declarações de congressistas sobre ultrajes a nativos americanos. Enfim, vídeo viral.

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