E, hoje, Paris já está tapada?

A única estátua de Napoleão nu é de Antonio Canova. Colossal, 3,5 metros de altura de mármore branco. É um nu quase total, só um manto lhe esconde o braço esquerdo, enquanto a mão direita segura uma "nike", em grego, o símbolo da vitória.

Canova era no começo do XIX o mais reputado artista europeu. Mas quando, em 1806, a estátua ficou pronta, o modelo não gostou. Napoleão achou-se demasiado atlético e por aqueles tempos ele preferia passar por estadista. Olha se Paris ainda tivesse o imperador naqueles desenvergonhados preparos... A França seria obrigada a esconder a sua glória.

Felizmente, a estátua "Napoleão Como Marte Desarmado e Pacificador" está longe, na Apsley House, em Londres, a casa que foi do duque de Wellington, o vencedor em Waterloo. Nunca os franceses suspiraram tanto de alívio por terem sido derrotados.

Como François Hollande esconderia a Hassan Rouhani, de visita por dois dias a Paris, aquele despropósito? Na segunda-feira, durante a estada do presidente iraniano em Itália, os italianos mudaram o seu célebre ditado "em Roma, sê romano." Em Roma, o mollah Roahni pôde continuar mollah, com todo o desprezo pela Antiguidade Clássica: os seus hospedeiros, de cócoras, taparam-lhe as Vénus e outras estátuas nuas dos museus do Capitólio.

Mas se o Napoleão nu está expatriado, resta o resto, quase toda Paris... Como esconder o pecado? Ir ao museu Rodin, nem pensar, O Pensador está lá no seu plinto, sozinho ou na Porta do Inferno, mas sempre nu. No Louvre, o mesmo, com a agravante de, lá, a "nike" não caber numa mão: a Vitória de Samotrácia tem 3 metros, com as mamocas correspondentes. Talvez passear o visitante pelas ruas. Bolas, nem isso! O Moulin Rouge parece um inocente moinho mas sabe-se o que lá dentro se passa. O Hôtel de Ville parece pudico, mas evoca O Beijo, da fotografia de Robert Doisneau. E, depois, os cafés e esplanadas com copos de beaujolais...

Talvez receber o presidente iraniano com Paris tapada por uma tenda gigante... A verdade é que ele já conhecia a França, esteve lá exilado, em Neauphle-le-Château, com o ayatollah Khomeini, até 1979. Visivelmente já a França era um pecado e Paris o seu pecado maior. O problema é que Paris continua na mesma. E Teerão, desde 1979, mudou muitos os costumes. Como poupar Hassan Rouhani ao atraso que Paris ainda leva?

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