Carlos Cruz

Não conheço o homem ontem colocado em liberdade condicional depois de cumprir mais de quatro anos de prisão. Não me lembro se alguma vez falámos sequer. Mas o caso dele aterroriza-me. Tanto que, confesso, fugi de alguma vez conhecê-lo - a ele e ao caso - melhor. Tal, reconheço, foi simples e pura cobardia. Não por medo de represálias ou consequências que me pudessem advir de querer saber, de investigar e conhecer verdadeiramente o assunto Casa Pia e o seu processo, mas pelo receio de me defrontar de perto com a hipótese horrível de que este homem esteja inocente; do que o convívio com essa realidade, essa dor, implicaria; de ser tragada no vórtice desse desespero. E, talvez pior ainda, pelo pavor, que suspeito inevitável, de descobrir que não é possível - ou já não é possível - provar uma coisa ou outra, e tudo dependerá daquilo em que se acreditar.

A ideia de um inocente preso é sempre terrível. Que essa prisão dure anos é tenebroso. Que a condenação, como é o caso das de abuso sexual de menores, implique uma espécie de opróbrio numa sociedade como a nossa é algo que transporta o caso para um patamar de horror que nem me consigo representar; que essa condenação tenha ocorrido com alguém que vivia da sua imagem pública é do domínio do insuportável.

Mas foi condenado, dir-se-á; por um tribunal, naquilo que é suposto ser um Estado de direito. Por que motivo, então, se configuraria a possibilidade de essa condenação não ser justa? Por causa da incansável certificação de inocência do próprio? Na verdade, por mais impressionante que ela seja, não é por aí. A minha dúvida nada tem a ver com a pessoa de Cruz; prende-se com o que sei do sistema judicial português e do próprio processo Casa Pia; com o não esquecer o clima de histeria mediática e de promiscuidade entre media e acusação que o rodeou, a incrível leveza com que se lançaram nomes na praça pública, a infame estultícia de certas "provas" vindas a público, e a noção de que a Justiça portuguesa, sob pena de total descrédito, não podia deixar de conseguir condenações no caso.

"Ora, se tivesse sido condenado injustamente já se teria provado", pensarão os que me leem. Sim: conhecemos casos, sobretudo estrangeiros, de gente que esteve décadas presa por crimes que não cometeu e a quem investigações, jornalísticas ou de advogados, lograram libertar; de gente executada há anos que uma prova recente provou estar inocente. O que isso diz, porém, é que o pesadelo de qualquer sistema judicial, o de condenar - até matar - inocentes, sucede. E que às vezes o erro é revelado.

Ontem, li a página de Carlos Cruz na Wikipédia. Diz assim: "Foi um apresentador português." Seja o que for que suceda doravante, há algo que é indesmentível: ocorreu com ele algo que só podemos descrever como uma morte em vida. Se for culpado, podemos até considerar que é merecido. E se não for?

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