Só nos faltava a santificação de Passos no descalabro BES

Pagar a conta sem fim da péssima resolução do BES e ainda levarmos com os arautos de Passos Coelho e o branqueamento da história? Há limites.

Comecemos então por uma frase que enquadra o que vem a seguir: o ex-primeiro ministro não tem quaisquer responsabilidades nos atos corruptos de Ricardo Salgado. Todavia, dito isto, Passos tem uma gigantesca responsabilidade na conta que colocou em cima de todos os portugueses pelos danos sociais e económicos da falência do BES. É que Passos Coelho preferiu eliminar a sangue frio o principal financiador do seu adversário político (onde também estava Sócrates e a entourage gestora dos centros de decisão nacional) do que aprovar uma solução que eliminasse Salgado sem rebentar com a solidez do sistema financeiro nacional.

Se há momento mistificadamente conotado com o Passismo liberal inspirado em "Milton Friedman" - ou seja, a tal governação de "mercado" - é este: fechar o BES "sem custos para os contribuintes", disse o ex-PM no areal da (profética) Manta Rota.

Só que não foi nada disto que aconteceu.

Há um texto factual da Cristina Ferreira, no Público, com o título "Governo de Passos recusou todas as alternativas à queda do BES". Sim, os crimes são de Salgado e da sua pandilha, mas são também de quem tinha a missão de evitar danos na economia e não o fez de forma minimamente diligente - Governo e Banco de Portugal.

Factos: em Julho de 2014, os banqueiros concorrentes de Salgado, fartos de avisar o Banco de Portugal sobre as falcatruas no Espírito Santo, perceberam que vinha aí um colapso sistémico que ia atirar o custo também para cima deles via Fundo de Resolução - tal como aconteceu.

Entretanto, o Banco de Portugal já não sabia mais o que fazer porque, no Governo, aparentemente, ninguém queria saber do furacão que se avizinhava. Carlos Costa, o Governador, também conhecido pelo "Mr. Magoo da supervisão", vislumbrou finalmente em 2014 o descalabro. E, poucas semanas antes do apocalipse BES, lá afastou Salgado e colocou no BES um conselheiro do Presidente da República da altura: Vítor Bento.

O que fez Vítor Bento a duas semanas da falência do BES? Foi implorar à ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, que fosse finalmente acionada a linha de recapitalização pública dada pela Troika para que os bancos se reestruturassem. BPI e BCP, por exemplo, já a tinham usado mas Ricardo Salgado recusava - não precisava!, dizia.

Maria Luís e Passos mandaram dizer a Vítor Bento: "Receptividade nula" em ajudar o BES.

O tempo escoava-se. O GES engolira as obrigações BES, o papel comercial "BES", o aumento de capital BES, as promessas de que tudo estava controlado - feitas pelo feitas Governador de Banco de Portugal e depois pelo Presidente da República. E havia ainda a evaporação de três mil milhões em Angola, fora os desvios para os esquemas dos offshores.

Em poucos anos, uma vetusta casa centenária transformara-se numa organização de pilhagem, capaz de sacar dinheiro aos clientes BES de todas as formas possíveis. Prospetos de contas forjadas. Cartilhas de argumentos falaciosos ao balcão. Ausência de separação entre o património GES e o BES. Valeu tudo.

Portanto, retornemos à questão essencial: Salgado caiu por causa de Passos? Não. Caiu porque já estava brutalmente falido. Era irreversível. Tal como no caso Madoff. Porque chega sempre o dia em que o dinheiro pára de entrar. E quando assim é, já não se paga aos que aparecem no prazo para receber e tudo se descobre.

Passos foi vencido pela ansiedade, ou não soube perceber o que significava o colapso do BES na economia real. E, em vez de Salgado cair falido e sozinho, deu-lhe a oportunidade de ser a vítima de uma vingança política, um herói escorraçado antes de salvar o banco de novo, como sempre na história da família.

Ao transformar o ""coma" do BES num "cadáver-avatar" chamado Novo Banco - Passos e Maria Luís gizaram a pior solução, como foi dito logo na altura por muita gente. E isto conduziu-nos à trágica e infinita nacionalização dos prejuízos.

E não, não foi o Banco Central Europeu que obrigou à falência do BES no dia 1 de Agosto (concretizada dois dias depois). Quem gerou o cenário de colapso para aquele desfecho fatal foi igualmente o Governo português da altura, ao impedir a capitalização e o plano Vítor Bento/José Honório de recuperar o novo BES público em três anos. Assim tivemos de o oferecer a um fundo abutre norte-americano.

A História acaba aqui? Longe disso. Falta-nos saber muito mais. A conjugação dos julgamentos "Operação Marquês" e "Caso BES" vai-nos fazer descobrir quanto mal foi realmente feito a Portugal na última década, a mais trágica da nossa democracia, indiscutivelmente.

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