Paraíso-Portugal: o IVA da luz como nosso maior problema

Visto de Madrid, de onde escrevo este texto, a dramatização do IVA da eletricidade em Portugal é tão bizarra que talvez só nos demos conta desse facto não estando mergulhados na hipnose nacional.

A lista dos eventos dramáticos pelo mundo é gigante por estes dias: na semana em que Trump destruiu a honra do discurso outrora feito por Lincoln ou Roosevelt, na Alemanha aconteceu algo na mesma linha: o líder da CDU do estado da Turíngia aceitou ser eleito para o Governo regional com os votos da extrema direita. Teve de renunciar 24 horas depois, coberto de vergonha e sob pressão da sua chefe, Angela Merkel. Mas os muitos nazis da AFD estão cada vez mais poderosos por toda a Alemanha.

Entretanto, em Madrid, os agricultores fecharam ruas na quarta-feira e prometem virar Espanha do avesso enquanto os supermercados não os compensarem melhor. Dizem que as grandes superfícies só vendem 7% de frescos nacionais e com margens 5 a 10 vezes superiores ao valor que compram. O líder da extrema direita apareceu (o VOZ é o terceiro maior partido em Espanha, com 52 deputados) para assinalar a luta pelo "produto nacional" como sua bandeira, à moda de Trump.

Já o primeiro-ministro Sanchez não sabe o que fazer com a Catalunha - porque precisa dos votos dos independentistas para se manter no poder, mas é fintado diariamente pelo precário líder catalão Torras. Pior ainda para os socialistas: o desemprego voltou a crescer em janeiro (já ronda os 15%) e o país está num clima de ódio esquerda/direita que não vai passar enquanto o Podemos não sair do poder.

Custa a crer: podíamos ter sofrido uma crise política dramática por causa do IVA da luz? É uma receita importante. Mas isto diz tudo sobre o quanto estamos acordo sobre o essencial em Portugal. Não temos nazis a caminho do poder, imigração e xenofobia recorrente, independentismo, terrorismo, o coronavírus não chegou, desemprego significativo, ou mesmo um líder louco como Trump, Putin, Orbán, Bolsonaro ou Maduro, só para falar de alguns (e há cada vez mais).

Não há dúvida que as coisas continuam a correr-nos bem. Mais um exemplo: de cada vez de que surge uma crise súbita na Ásia, mais a indústria portuguesa se torna um parceiro fiável e se afigura como salvação para mercados sofisticados. Veremos se o inevitável arrefecimento da economia mundial nos prejudica ou se a produção industrial e as exportações, mesmo assim, dão um novo salto.

Por isso o dia de ontem fez-nos recuar alguns anos e lembrar-nos que ainda temos estadistas.

Estamos num ponto em que só nós conseguiremos autodestruir-nos. Fora isso, somos cada vez mais amados por todo o lado - como inovadores, adaptativos e com um país soberbo. Cada vez mais gente quer viver em Portugal. Batemos o recorde do número de pessoas a trabalhar no país, milhares delas estrangeiras. E se tivessemos suficiente mão-de-obra qualificada, sobretudo engenheiros, seriam ainda mais as empresas estrangeiras a instalarem-se em Portugal.

Está tudo bem? Nada disso. Aliás, atuamos politicamente como se a coisa mais extraordinária conseguida nos últimos anos - o resgate da credibilidade (rating), acesso a juros baixos e a paz social - fossem um dado adquirido. Não é.

Só que estamos perante circunstâncias únicas pelo facto de termos, em simultâneo, Costa como primeiro-ministro e Rui Rio como líder da oposição - com o Presidente Marcelo a ir às dobras. Bastaria um mínimo de irresponsabilidade e o orçamento teria sido tomado de assalto pela despesa (ou perda de receita). A verdade é que não aconteceu. Porque o dado essencial é este: todos sabemos que só vamos conseguir melhorar verdadeiramente as condições de vida dos portugueses quando os nossos 120% de dívida pública forem consideravelmente reduzidos. Ou seja, não precisemos de amortizar tanta dívida e consequentes juros.

O problema da política portuguesa é que, aparentemente, só o PS, PSD e talvez o CDS compreendem isto - e ainda ontem mostraram que são o perímetro confiável em questões extremas como a solvabilidade do país.

A geringonça era uma ideia meritória e que representava ganhos consideráveis para as franjas mais desprotegidas do país. Infelizmente, foi um negócio de interesse. PCP e Bloco vivem numa competição frenética entre si para captar os votos dos seus grupos de eleitores-alvo. Tudo o resto parece instrumental.

Por isso o dia de ontem fez-nos recuar alguns anos e lembrar-nos que ainda temos estadistas. Na era da política-espetáculo em que vivemos, foram homens com mais de 60 anos (Marcelo, Costa e Rio) quem conseguiram pôr o pé no travão antes de uma convulsão política absurda, meia dúzia de meses após as eleições. Quanto perderia o país com isso? A eleição de Montenegro ter-nos-ia começado ontem a custar muitos milhões.

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