Viva o grande Almada, pim!

Reencontrar a obra de Almada Negreiros na grande exposição que a Fundação Gulbenkian lhe dedica até junho é estar na presença de um autor de génio que, como poucos e à maneira fulgurante dos grandes criadores renascentistas, juntou diversas artes no assombroso leque do seu desnorteante talento, tendo sido um grande poeta, um imenso pintor, um notável ficcionista, um muito inspirado cenógrafo, designadamente para o Teatro Experimental de Cascais, um bailarino e ainda um encenador inovador.

Embora tenha afirmado a pujança e a diversidade da sua capacidade criadora sobretudo no início do século XX, José de Almada Negreiros, nascido em São Tomé e Príncipe em 7 de abril de 1893, marcou todo esse século com as obras que confirmam a excelência do seu lugar na vida cultural e artística portuguesa. Nunca o artista teve dúvidas a esse respeito. Por ter vivido mais tempo que Mário de Sá-Carneiro e que o pintor Santa-Rita, ambos mortos em 1918, o último ano da I Guerra Mundial, em que estivemos e perdemos tantos militares, e que o próprio Fernando Pessoa, falecido em finais de 1935 com 47 anos, Almada, que viveu em Paris e em Madrid, onde podia ter construído uma fulgurante carreira internacional, decidiu regressar a Lisboa, terra que amava mas sabia ser culturalmente limitada e tantas vezes provinciana para criar a sua obra.

Quem, como eu, chegou a vê-lo, com uma tocante vitalidade e inteligência, no programa Zi-Zip, dando uma inesquecível entrevista, e também no Teatro Experimental de Cascais, onde aceitou ser cenógrafo, sabe que, quando morreu em 15 de junho de 1970, deixou um vazio impossível de ser preenchido na vida portuguesa por ser um génio, um espírito luminoso e um homem que caminhou e criou no seu tempo e muito à frente dele, sendo, como "futurista e tudo", capaz de abrir vias para a compreensão do mundo, da arte e da vida de forma nunca igualada pelos seus contemporâneos ou outros.

Como sobre ele escreveu José Augusto França, foi um assombroso "português sem mestre" mas também sem discípulos que fez nos vários capítulos da criação artística uma boa parte do que fizeram os homens da navegação no tempo dos Descobrimentos. Almada juntou e iluminou territórios nunca se deixando contaminar pela pequenez estética que tantas vezes o cercou e quis sufocar.

A exposição patente na Gulbenkian deixa-nos perfilados ante a grandeza de alguém que, sendo um de nós e deste Portugal, conseguiu ser maior que os outros.

Quem ler ou reler hoje A Invenção do Dia Claro, de 1921, o Manifesto Anti-Dantas, de 1916, ou os romances Nome de Guerra ou A Engomadeira perceberá que este homem de olhar fulminante, que tinha também poderes magnéticos que só alguns testemunharam, foi imenso no seu tempo e fora dele, muito para além do espartilho da caracterização ideológica que nunca diz sobre ele o essencial. Importa por isso termos presente o que pessoas como o jornalista e investigador António Valdemar podem contar-nos sobre Almada, sobre o seu tempo e sobre a sua singular e tão livre personalidade.
Almada nunca deixou de ser, no seu íntimo, o menino amargurado pela ausência da mãe, morta em 1896, e pela distância do pai, com quem se reencontrou apenas uma vez fugazmente, sem nunca esquecer o muito que o desencontro de uma vida o fez sofrer. Foi tudo o que quis ser, polémico, rebelde, desafiador, indomável, com a "fulgurante dispersão", nos termos usados por Fernando de Azevedo, que lhe permitiu estar de bem consigo e muito além de tudo, livre e absoluto como uma estrela na imensidão do céu.

Casado com a pintora Sarah Afonso, conquistou em vida a posteridade que nunca dele quis abdicar, por saber que o seu nome e a sua obra lhe conferiam a dimensão de luz que gera a verdadeira intemporalidade. Almada tornou-se membro da Sociedade Portuguesa de Autores em 25 de janeiro de 1961, a ela se mantendo ligado até à data da morte.

A exposição da Fundação Gulbenkian tem, entre outros, o mérito de integrar aspetos da obra de Almada desconhecidos (recordo-me de um assombroso retrato de Antero de Quental) que fascinam o público e os investigadores porque, sobre Almada, já tudo foi praticamente dito e escrito, mas ficou ainda muito por dizer e por analisar. Este é o Almada da diversidade e do assombro, o nosso imenso Almada, a parte de nós que nenhuma ditadura estética, política ou ideológica conseguiu alguma vez vencer ou estigmatizar.

Almada Negreiros foi, em termos definitivos, um dos melhores de todos nós e, em absoluto, um criador único, plural e universal que nunca deixa de nos deslumbrar.

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