"Vacina para Todos": uma luta pelo futuro

Um dos filmes que mais me impressionou do nosso centenário realizador Manoel de Oliveira (1908-2015) foi O Meu Caso, que se estreou em 1986. Na altura, não entendi o filme e saí da sala irritada por aquela montagem em palco de uma peça que parecia estar sempre a voltar atrás e não saía da repetição obsessiva "o meu caso" por personagens que queriam demonstrar que o seu caso era mais importante do que o do outro. Só depois fui ler a peça de José Régio com o mesmo título, que serve de guião desconstruído ao filme. José Régio (1901-1969) é mais um dos escritores que fomos deixando de ler e, no entanto, nada mais atual nestes tempos que vivemos. O Meu Caso (1957) é uma peça cómica que se vai adensando em reflexão sobre a condição humana, o que também acontece no filme de Oliveira, com citações ao Livro de Job que servem para traçar um quadro crepuscular da civilização moderna. Termina com a recriação de Piero della Francesca, o pintor do quattrocento italiano, que para mim significa essa transição eufórica do final da Idade Média para uma Idade Moderna humanista, atenta ao homem e à natureza.

Neste tempo de pandemia, é a nossa condição humana que vai sendo posta à prova, entre a tendência para cada um se fechar no "seu caso" e a imensa solidariedade a que temos assistido. A pandemia põe à prova, de uma forma global, o nosso modo de vida, antes de mais a liberdade de circulação e de reunião, a proximidade humana, criando uma desconfiança que tentamos civilizadamente disfarçar, reprimir ou ignorar, mas sempre surge nem que seja através das recomendações necessárias para mantermos uma vida comum.

Os sinais mais evidentes da tendência para nos fecharmos no "meu caso" têm sido as declarações mais ou menos veladas sobre soluções nacionais para a vacina: "Quando chegar, será, em primeiro lugar, para nós". Foi, por isso, que ouvi com particular agrado o discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre o Estado da União, em que declarou inequivocamente: "O nacionalismo das vacinas coloca vidas em perigo e é a cooperação na área das vacinas que as salvam", acrescentando que temos de assegurar que os cidadãos europeus e do mundo inteiro tenham acesso a elas. Outras vozes como o Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ou o Papa Francisco, têm apelado a que possamos ter soluções solidárias e capazes de promover uma justiça que nos conduza a uma maior sustentabilidade social e ambiental.

No mesmo dia em que Ursula von der Leyen proferiu o seu discurso, 16 de setembro, foi lançada em Portugal a campanha "Vacina Para Todos", subscrita por mais de uma centena de personalidades portuguesas de diversas áreas - de ex-Presidentes da República a ex-Ministros, a presidentes de reputadas Fundações, de escritores a professores universitários - que acreditam e compreendem a importância de uma solução que não beneficie apenas alguns e algumas regiões.

A campanha nasce da iniciativa do prémio Nobel da Paz, Mohamad Yunus, o pioneiro do microcrédito, que convidou uma centena de prémios Nobel e outros líderes mundiais que se mobilizaram a nível internacional.

Sabemos que uma só vacina não será suficiente e, de uma perspetiva de fabrico e de distribuição, imunizar a população mundial vai exigir talvez os contributos de todas as empresas que já hoje estão envolvidas no processo, mas importa que o princípio orientador seja o de um acesso universal, justo e equitativo à vacina - acreditando que ela será encontrada - evitando soluções para "ricos" e soluções para "pobres".

A campanha "Vacina para Todos" tem como coordenador nacional Rui Marques, Presidente do IPAV e Diretor da Academia de Líderes Ubuntu, projeto orientado para a capacitação de jovens tendo por base o pensamento ubuntu divulgado por Nelson Mandela: "eu sou porque tu és".

No passado sábado, tive a alegria de assistir à primeira sessão de formação da Academia na América Latina: 90 jovens formandos de 13 países da região e 30 dinamizadores da Colômbia, Peru e Venezuela. Apenas mais um passo num caminho longo que se estende a vários continentes com quase 9000 participantes. É por esse sinal de esperança que também vale a pena lutar.

Há muitas décadas que a Europa e os EUA não conheciam uma pandemia tão devastadora. Do que nos lembramos, estas crises sanitárias circulavam sobretudo pela Ásia, por África e um pouco pela América Latina. Desta vez, somos confrontados com uma crise global, mas que terá ainda maior impacto nos mais desprotegidos e nas regiões com maiores fragilidades.

América Latina e Caraíbas têm sido particularmente fustigadas prevendo-se uma contração da economia acima de 9% em 2020. A queda da atividade económica é de tal magnitude que o nível do PIB per capita irá retroceder dez anos, apagando o imenso esforço que havia sido feito numa região que é a mais desigual do mundo. António Guterres, na apresentação do Relatório especial sobre o impacto da Covid-19 e as medidas para a recuperação, elaborado pela CEPAL, a Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas, apelava à necessidade urgente de um novo modelo de desenvolvimento numa região em que a desigualdade se tornou insustentável, como temos visto nas imagens que nos chegam nestes dias dolorosos. É preciso sistemas fiscais mais justos, mecanismos de proteção social mais abrangentes e acessíveis a todos, e particular atenção aos mais vulneráveis como as mulheres que são a maioria da força de trabalho dos setores mais atingidos e carregam agora o duplo fardo de prestarem cuidados adicionais.

Por todas estas razões, a OEI associou-se à campanha "Vacina para Todos". Não apenas pela região ibero-americana, mas porque precisamos de "atravessar juntos esta tempestade", como dizia o Papa Francisco. Não apenas por razões de presente, mas também de futuro. Num mundo interconectado, as perdas de uns terão efeito sobre os outros. Importa que estejamos atentos e apoiemos soluções possíveis que não deixem ninguém para trás.


Ana Paula Laborinho
Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos - OEI

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