Uma Ominosa Ausência de Insectos

Não é que um adulto funcional (ou até mesmo um fanaticamente dedicado a deixar de fazer a barba por incompatibilidade de agenda com um Sérvia-Costa Rica) se sinta aturdido por um surto de resultados chocantes. Mas o mínimo que exigimos é uma praga de insectos a servir de aviso prévio. Afinal de contas, fomos sendo condicionados para isso.

Os últimos dois torneios internacionais tiveram insectos como profetas menores: o enxame de traças que assolou o Stade de France em 2016, incluindo a que baptizou o rosto de Cristiano Ronaldo no momento da lesão e portanto tornou inevitável a nossa vitória; e a nuvem de gafanhotos gigantes que invadiu Manaus durante o Mundial 2014, incluindo o que adornou o bíceps de James Rodriguez pouco antes de o Brasil o eliminar da prova, abrindo assim caminho à histórica derrota por 7-1 contra a Alemanha. O Mundial da Rússia ainda não nos presenteou com insectos proféticos. O que fez, talvez por decorrer na Rússia, foi presentar-nos com desinformação preventiva sobre insectos, na pessoa de Pyotr Chekmaryov.

O Dr. Chekmaryov, que ocupa o esplêndido cargo de Supervisor da Protecção Vegetal no Ministério da Agricultura Russo, e de quem nenhum de nós teria ouvido falar se não existisse futebol, prestou em Janeiro de 2018 as seguintes declarações, que meia dúzia de agências noticiosas trataram de arrastar até ao meu défice de atenção: "Receio que a Rússia seja o palco de um escândalo internacional de gafanhotos durante o Mundial. Os gafanhotos gostam de sítios verdes, como relvados de futebol, e uma praga é um risco genuíno, que pode envergonhar a nossa nação perante toda a comunidade global". Maus augúrios, uma tentativa excêntrica de prever o futuro envolvendo animais, um homem vagamente exótico manifestando uma preocupação vagamente absurda com a honra de um país: eis, num haiku da Reuters, o Campeonato do Mundo.

Ao contrário dos Campeonatos da Europa, com os seus asteróides, cometas e satélites em chamas (Dinamarca, Grécia - Eder!), os Mundiais costumam ser um sossego estatístico. Só oito países conseguiram ganhar um. E foi de um núcleo duro de cinco - Brasil, Alemanha, Argentina, Itália e Holanda - que saiu sempre pelo menos um dos finalistas. Dois deles nem sequer estão presentes desta vez, o que deveria sequestrar a matemática da previsibilidade dentro de limites ainda mais confortáveis, tanto para o turista de sofá como para o cosmopolita que prefere investir alguma da sua sofisticação emocional numa agência de apostas em Gibraltar.

E no entanto, ao terceiro dia, já acumulámos uma dose alarmante de prodígios sem presságios. Nem Argentina, nem Brasil, nem Alemanha conseguiram ganhar um jogo; e a França só ganhou o seu graças à intervenção de um deus literalmente ex-machina. (A Espanha também empatou, embora isso seja francamente menos grave). Uma surpresa destas tem graça, pois permite-nos experimentar, em condições controladas, uma das tensões centrais na apreciação recreativa de desportos: o facto de uma vitória obtida pelo competidor em desvantagem competitiva subverter o propósito da apreciação (pois o que queremos apreciar é o triunfo da superioridade), mas ao mesmo tempo proporcionar uma história melhor, como são todas as histórias de superação. Mas três surpresas consecutivas e começamos a ter pesadelos com uma marca de água muito específica: um grego, na Luz, a erguer uma taça. É algo que devemos rejeitar, a não ser quando o grego somos nós, o que neste caso até é uma possibilidade remota.

Mas tudo isto é ainda prematuro. São raros os Mundiais em que a primeira semana não traga consigo um arrastão revolucionário; e igualmente raros aqueles em que as jornadas subsequentes não restaurem a monarquia (excepto quando não o fazem e ficamos todos a perder, excepto Gibraltar). É só na segunda ronda que uma história legível começa a ganhar definição, quando as equipas que tiveram começos titubeantes são confrontadas com as consequências.

Portanto a melhor aposta nesta altura continua a ser no sereno cancelamento das surpresas iniciais. Nem sempre cada jogo consegue retardar a progressão natural de um desporto tão refém de acidentes para a desordem hierárquica, onde a entropia vai saciar o seu apetite num espalhafato de efeitos secundários. Mas a médio prazo, quando a tarefa de preservar a ordem é delegada ao tempo e à tradição, o que acontece é mais previsível e costuma chamar-se Alemanha.

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