Uma África na Medida Certa

As histórias que se contam por si próprias não existem. Cada um é autor e narrador da sua própria história, por vezes fiel aos factos, por vezes ficcionada, aumentada, diminuída ou até, e literalmente, mal contada. Uma das minhas maiores ambições como historiador e pensador de modelos de desenvolvimento é interpelar autores de diferentes narrativas, analisar e compreender os factos por detrás de cada história. Se possível, fazer parte dessas narrativas, de tessituras tão complexas e intrincadas, por vezes. Foi essa ambição que refinou o mantra "Africa First", lema que cunhou o meu mandato ao longo de quatro anos como secretário executivo da Comissão Económica para África, órgão das Nações Unidas, lugar de onde decidi partir rumo aos caminhos que eu, como autor da minha própria história, decidi trilhar.

Ao longo de um percurso de quatro anos, o balanço que faço é institucional, fruto de um laborioso trabalho de reestruturação estratégica do pensamento africano, lapidado diariamente por mil colaboradores que trabalham no avanço do estado da arte do pensamento económico sobre África. Da orientação e aconselhamento técnico aos Estados membros africanos, à preparação e publicação de relatórios nas mais diversas áreas do pensamento socioeconómico de África, ao acolhimento e preparação técnica de grandes conferências de forte impacto sobre as políticas mundiais de desenvolvimento económico, a CEA afirmou-se internacionalmente como um laboratório de estratégias da transformação estrutural africana. Se África quer escrever a sua própria narrativa, precisa de a pensar e de a ancorar em dados credíveis e coerentes, para se colocar na posição de autor e não na de leitor de narrativas defensoras de interesses que lhe sejam alheios.

Os líderes africanos utilizam agora a transformação estrutural como o mantra económico de um continente dono das suas prioridades de desenvolvimento. Este é um balanço positivo, na medida em que as megatendências que hoje caracterizam África são, por si, um ingrediente da transformação estrutural: o aumento demográfico, a gradual migração para os grandes polos urbanos e o fomento de economias orientadas para os setores secundário e terciário exigem políticas económicas estruturadas holisticamente, acopladas a uma capacidade estratégica orientada para as necessidades que o continente afere como prioritárias. Ao mesmo tempo, para que isto aconteça, é necessário sair da letargia intelectual gerada pelas ondas otimistas de um PIB em franco crescimento, ao longo dos últimos 15 anos. Se é dado adquirido que África cresceu, num cenário de crise global, também é verdade que esse crescimento não foi nem é, ainda, qualitativo: não se geraram empregos suficientes, os níveis de pobreza continuam elevados e a dependência das matérias-primas continuou em alta, contribuindo para uma perceção de risco particularmente negativa. A CEA procurou trabalhar, a nível intelectual e técnico, no sentido de auxiliar os Estados africanos a inverterem os dados do jogo a seu favor. Aferir a lacuna de um crescimento económico socialmente letárgico foi o primeiro passo para se pensar nos desafios de um processo contínuo - o da transformação estrutural - que países e regiões como a China ou o Sudoeste da Ásia ultrapassaram com sucesso, através da aposta numa industrialização baseada no aumento da produtividade agrícola ou na diversificação económica.

Em quatro anos a CEA conseguiu o feito de passar de uma consulta mensal, no seu site, de sete mil para 2,4 milhões, de ser citada anualmente em mais de 400 meios de comunicação social do continente, de aumentar o seu impacto em políticas medidas por inquéritos de opinião de forma exponencial e de ter contribuído para a realização de todos os grandes projetos continentais, tais como a Agenda 2063, a zona de livre comércio, o Consenso sobre Estatística ou ainda o combate ao tráfico ilícito de capitais. O seu estatuto de think tank do continente é agora indiscutível!

Secretário executivo cessante da Comissão Económica para África (CEA) da ONU

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