Um mapa nacional da memória e da cultura

Há várias maneiras de olhar para os mapas nacionais e de perceber as múltiplas realidades que eles guardam em si. Os mapas devem ser o rosto de uma unidade que também abarca a diversidade e a contradição. Muito mal estarão os mapas que se convertem em frágeis instrumentos de propaganda de uma coesão que não existe.

Portugal, para bem de todos nós, nunca se defrontou com o drama de uma diversidade que o pusesse ou ponha em causa. Somos uma diversidade pacífica que não vive o drama de diversidade que constrange, apoquenta e divide. A nossa diversidade é fruto da forma como vivemos e construímos a nossa história.

No momento em que tão intensamente se discute o que irá ser o futuro de Espanha e da Catalunha com as instituições e as populações a confrontarem nas ruas e no espaço mediático as suas diferentes opiniões e sentimentos, a tranquilidade da realidade portuguesa deixa-nos num silêncio crítico que nos permite observar o que irá acontecer, seja qual for o desfecho. Porém, devemos ter consciência de que, seja qual for o epílogo, ele não nos deve deixar indiferentes. O que acontece em Espanha pode sempre ter consequências para Portugal e para o portugueses, mesmo sem a inquietação que decorre de um passado tantas vezes marcado pelo confronto militar e pela querela política. Os tempos são outros, mas os povos são os mesmos, para o melhor e para o pior.

Também por isso chamo a atenção para a oportunidade do lançamento de uma iniciativa intitulada Mapa dos Autores Portugueses, que a Sociedade Portuguesa de Autores está a concretizar, demonstrando que muitas são as autarquias e regiões cuja identidade se fortalece com a referência aos escritores, músicos, artistas visuais, dramaturgos e outros que nelas nasceram e se afirmaram como criadores de referência.

Faro é a cidade de António Ramos Rosa, Funchal de Herberto Helder, Vila Viçosa de Florbela Espanca, Setúbal de Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Porto de Almeida Garrett, Sophia de Melo Breyner e José Gomes Ferreira, Lisboa de Cesário Verde, David Mourão-Ferreira, Alexandre O"Neill e Mário Cesariny, e Tomar de Fernando Lopes-Graça.

É possível, a partir destes e de dezenas de outros nomes importantes, sobretudo da segunda metade do século XIX e de todo o século XX, construir uma geografia de memória e afecto que abarque os nomes e as obras que nos completam e engrandecem. O Mapa dos Autores Portugueses pode e deve envolver as autarquias, eventualmente o Ministério da Educação e outras instituições públicas que representem o poder central, e ainda órgãos de comunicação social, editoras e estruturas associativas de referência. Como alguém disse, é até admissível que a partir deste quadro geral se possa criar uma toponímia mais abrangente e mobilizadora.

Até agora foram já identificados mais de 120 nomes que permitirão estabelecer uma relação de proximidade e celebração que envolva a SPA e muitas autarquias de todo o país.

É estimulante e inovadora a ideia de que crianças de muitas escolas podem ter à frente dos olhos o mapa de Portugal, apontando nele de forma criativa as terras de nascimento dos escritores e outros autores que várias gerações há muito admiram.

Deste levantamento geográfico e cultural também pode nascer um programa de televisão e de rádio e ainda documentários que nos ajudem a saber mais sobre o que é nosso e de todas as épocas.

Onde existem ideias e projectos todas as vontades podem unir-se para que eles dêem frutos e esses frutos ampliem a nossa capacidade de dar asas e sentido de voo ao que a nossa memória une e abarca.

O Mapa dos Autores Portugueses, ideia que não vimos até hoje ter expressão noutros países, pode converter-se numa plataforma de diálogo e trabalho comum que deve envolver várias gerações e instituições de forma criativa e mobilizadora. A SPA deu o tiro de partida e tem a vantagem e o mérito de representar a grande maioria dos autores e os contributos criativos que, ao longo dos anos, tanto enriqueceram a nossa cultura e a memória colectiva.

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