Três YouTubes e a Lotaria na Babilónia

Nas entranhas mais recônditas e menos pixelizadas do YouTube pode encontrar-se um vídeo intitulado "World Cup Lots Draw 1990", que regista um momento por enquanto único na história dos Campeonatos do Mundo.

O Grupo F do Itália '90 descambara numa salganhada de empates. A Inglaterra lá conseguiu vencer o Egipto no último jogo, mas na Sicília e à mesma hora, Holanda e República da Irlanda mantiveram o hábito, artilhando novo 1-1, num encontro típico desse torneio de reputação vagamente infame (que levou, entre outras alterações, à regra dos 3 pontos por vitória e à proibição dos atrasos para as mãos dos guarda-redes). Os últimos dez minutos, que também podem ser vistos no YouTube, são uma espécie de versão narcotizada do tiki taka, com ambas as equipas recusando atravessar a linha de meio-campo, e Gullit, Rijkaard, Koeman e Wouters em trocas intermináveis de passes de cinco metros à entrada da sua área, como um quarteto de Xavis com uma doença degenerativa. O empate garantia a passagem de ambas aos oitavos-de-final, mas com os mesmos pontos e o mesmo número do golos marcados e sofridos. Era preciso definir a ordem classificativa e o derradeiro critério era um sorteio.

O YouTube mostra a cerimónia, presidida pelo então secretário-geral Sepp Blatter, com o dobro do cabelo e metade das contas offshore. Vemos dois aquários em cima de uma mesa, alguns papelinhos dobrados e uma funcionária da FIFA a fazer a escolha cega. Tudo fica resolvido em três minutos. A Irlanda "ganhou" o sorteio, ficando com o 2º lugar; a Holanda ficou com o 3º (no Mundial de 1990, o primeiro a ter 24 equipas, os melhores terceiros eram apurados) e também com a fava: defrontar a Alemanha no primeiro jogo a eliminar.

Se os dedos da senhora da FIFA tivessem invadido o aquário meio centímetro para a esquerda ou para a direita, um ramalhete de possibilidades alternativas alteraria toda a competição. A grelha de eliminatórias cruzaria equipas diferentes, a Holanda podia ter chegado mais longe, a Itália podia ter caído mais cedo, a Alemanha podia não ser campeã. Mesmo mantendo a especulação dentro de limites razoáveis podemos dar como certo que o plano em câmara lenta da saliva de Rijkaard a encrustar-se na frondosa permanente de Rudi Völler não faria parte do nosso imaginário colectivo.

Chegados à derradeira jornada da fase de grupos em 2018, o sorteio volta a ser uma possibilidade para decisões cruciais. Bélgica e Inglaterra, por exemplo, correm esse risco caso empatem o último jogo - no marcador e nos cartões amarelos. Chegaram aqui não por reproduzirem a gincana de empates de 1990, mas por terem defrontado duas selecções - Panamá e Tunísia - para as quais o pontapé de canto é um profundo mistério nacional: um desastre da natureza perante o qual as únicas reacções apropriadas são olhar os céus com pavor religioso ou abraçar fervorosamente o ser humano mais próximo.

Mas quando as diferenças de golos atingem estes números (8-2), será mais fácil ainda recorrer ao masoquismo retrospectivo se, ou quando, tudo correr mal. Como seria se o calcanhar inadvertido de Kane tivesse levado a bola ao poste e não para o fundo das redes? Se Batshuayi, que marcou o último golo da Bélgica contra a Tunísia, tivesse convertido uma das outras oportunidades? A verdade é que cada gesto técnico bem ou mal sucedido num jogo de futebol é uma obliteração de futuros possíveis. Mesmo a ocorrência mais aparentemente inevitável, sujeita a iterações infinitas, devolveria universos infinitos.

Um terceiro vídeo que podemos ver no YouTube é um rudimentar conjunto de imagens filmadas durante a final do Mundial de 1934. A anfitriã Itália, com Mussolini nas bancadas, perdia a oito minutos do fim com a Checoslováquia, quando Raimundo Orsi levou o jogo para prolongamento com aquele que é tido como um dos melhores golos de sempre em finais de Mundiais, embora o vídeo seja de tão fraca qualidade que é impossível perceber o que se passa. Crónicas da época descrevem um remate de fora da área, com a bola a descrever um "arco impossível". Como nenhum fotógrafo foi capaz de capturar o momento em condições, a imprensa regressou ao estádio no dia seguinte, e Orsi foi convidado a reproduzir o remate, exactamente do mesmo sítio, desta vez sem guarda-redes. Em vinte tentativas, não acertou uma.

Por opção pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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