Tornei-me dependente de Narcos

Depois de longa resistência, em nome do velho e sábio preceito de não criar situações de tentação, aderi ao Netflix. E em vez de começar por substâncias leves, como The Crown, tornei-me dependente de Narcos, a que já me tinha agarrado nas duas primeiras temporadas.

Sou um velho devoto destes filmes e séries de "crime organizado", não só por ser de uma geração que apanhou o cinema como movimento e tragédia, com bons e maus, heróis e vilões (mesmo quando os heróis são os vilões e a história é a sua ascensão e queda), como por achar que nestas estruturas mafiosas reaparece o poder em estado puro, um poder quase sem limites mas sempre com algumas regras, e que estudar os seus mecanismos é uma forma de o perceber e de o combater. O comportamento real dos criminosos e das organizações criminosas é sempre um índice importante para avaliar o grau de civilização de uma sociedade, tanto mais numa época em que a retórica progressista e humanitária proclama a universalização dos direitos.

Mas não é por estas ou outras considerações e reflexões, ainda que reais e verdadeiras e importantes, que nos sentamos a ver este tipo de filmes e séries. Podemos identificar todos os truques usados para que fiquemos agarrados ao ecrã, mas o facto é que ficamos. Podemos até avaliar a qualidade do produto e compará-lo com outras remessas mais puras, mas não resistimos à tentação de o consumir.

As duas primeiras temporadas de Narcos, dirigidas por José Padilha, contavam a história de Pablo Escobar Gaviria (Wagner Moura), natural de Antioquia mas instalado na cidade de Medellín, que, em associação com um "químico" Mateo Moreno, Cucaracha, fugido do Chile de Pinochet, iniciou uma joint venture de fabrico e tráfico de cocaína que o tornou um dos homens mais ricos e poderosos da Colômbia.

Escobar foi o grande empresário do crime organizado, valendo-se das gigantescas mais-valias obtidas no ciclo de fabrico, transporte, distribuição e retalho do produto para o mercado norte-americano. Essa fortuna permitiu-lhe criar uma verdadeira multinacional do crime, com uma estrutura completa de engenheiros do produto, gestores, contabilistas, transportadores, distribuidores no retalho e sicários - bandidos armados pagos para protecção dos chefes, para segurança das suas residências e "laboratórios" e também, last but not least, para aterrorizar os adversários e eliminar os mais activos oponentes. E ainda um núcleo de relações públicas para corromper tudo o que lhes pudesse fazer frente: políticos, empresários, magistrados, polícias.

Escobar, com os seus biliões, praticou o mecenato e a caridade, distribuindo riqueza para ganhar as boas graças dos seus concidadãos de La Paz, em Antioquia. Chegou mesmo a começar uma carreira política e a ser eleito deputado. E negociou com o governo a sua detenção numa prisão de luxo, "La Catedral", feita especialmente para ele e guardada pelos seus sicários. Depois entrou em ruptura, recorreu ao terrorismo, mandou assassinar o ministro da Justiça, derrubou um avião da Avianca e fez explodir um edifício que albergava o Departamento Administrativo de Segurança.

Começou então uma guerra sem quartel contra o Estado colombiano e a DEA - Drug Enforcement Administration -, escalando para o terrorismo sem limites: pagou prémios por polícias mortos (dez mil dólares) e por agentes da DEA (300 mil). Dada a debilidade dos governos locais e do próprio Estado, infiltrado por cúmplices dos bandidos, a DEA representava o que os narcos colombianos mais temiam: a extradição para os Estados Unidos, onde não tinham o tratamento privilegiado das prisões nacionais, de onde não podiam sair e onde acabam por cumprir as penas até ao fim.

Aqui os "bons" da fita eram os agentes Steve Murphy e Javier Peña, que perseguiam incansavelmente Pablo Escobar até que, no fim da segunda temporada, o abatiam, num telhado periférico de Medellín. Narcos, primeira e segunda temporadas, é a história da ascensão e da queda de Pablo Escobar. Nessa queda terão tido papel importante os chefes do Cartel de Cáli que, a partir de 1988, entrou em guerra com os rivais de Medellín.

E é ao Cartel de Cáli que se dedica esta terceira série; quando, depois da morte de Escobar, os irmãos Rodríguez Orejuela passam a dominar o mercado americano e mundial da cocaína.

Os chefes do Cáli são os irmãos Gilberto e Miguel Rodríguez Orejuela, José Santa Cruz Londoño (Chepe) e Helmer Herrera Buitrago, (Pacho), o grande inimigo de Escobar. Pacho Herrera tinha a singularidade de ser homossexual, entre capos mafiosos, e de sobreviver apesar da cultura machista do meio.

Gilberto é o chefe, Miguel o relações-públicas, Chepe (na série interpretado por um actor português, Pêpê Rapazote) o gestor da operação nos Estados Unidos. Mas abaixo desta direcção há dezenas de quadros que se ocupam da segurança, do transporte e da distribuição da droga, das operações financeiras, da defesa judiciária, das relações públicas, da lavagem de dinheiro.

É também no princípio desta temporada que Gilberto Rodríguez comunica aos seus apaniguados e associados que negociou com o governo de Bogotá uma rendição do cartel, que em seis meses deixará o narcotráfico, entregando-se às autoridades, recebendo em troca pequenas penas e a possibilidade de legalizar as suas outras actividades. A novidade não agrada a todos: desde logo ao cartel de North Valley, mas também ao próprio Miguel Rodríguez e ao seu filho Daniel, um assassino paranóico que mata e tortura por gosto.

Do lado da DEA, Javier Peña (Pedro Pascal, o Oberyn Martell de Game of Thrones) continua a perseguir os barões de Cáli; por isso tem conflitos funcionais com o responsável da CIA em Bogotá e com o próprio embaixador. Numa cidade controlada pelo "polvo" dos narcos, que escuta, segue, espia tudo e todos, vão ser as divisões e os choques na estrutura mafiosa e as consequentes guerras sanguinárias que vão criar condições para que a DEA, com o apoio de uns poucos incorruptíveis da Polícia e das Forças Armadas colombianas, consiga, finalmente, vencer e liquidar o Cartel de Cáli.

Os aficionados do género lembrar-se-ão dos clássicos Padrinhos de F.F. Coppola e da recusa de D. Vito Corleone, na fabulosa interpretação de Marlon Brando, de entrar no negócio da droga, precisamente em nome das regras e dos princípios da sua ética de fora-da--lei. Mas os seus sucessores aceitaram. E em poder e crueldade os colombianos ultrapassaram tudo; talvez pelas suas multiactividades: além das drogas, da prostituição, do jogo, dos raptos e da contrafacção, entenderam-se com organizações guerrilheiras e tiveram ambições políticas, chegando ao ponto de corromper e forçar o Estado a negociar com eles.

É difícil imaginar algo de mais brutal e selvagem do que os cartéis dos narcos colombianos, mas sabemos que nestas coisas o pior fica para o fim. E dizem que vem aí a quarta temporada e com ela os ainda mais terríveis cartéis mexicanos, mesmo junto à fronteira do grande mercado consumidor de alienação fácil.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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