Todos os fogos que há no fogo

Tendo presente a realidade dramática que Portugal vive, prolongando o rescaldo do cenário de destruição e morte que se alonga por vários distritos, é natural que nos recordemos do título do livro de um grande escritor argentino. O escritor é Julio Cortázar e o livro Todos os Fogos o Fogo. Quem se habitou a ler este autor ainda nos anos 60 do século passado nunca mais deixou de se fascinar com a magia de uma escrita que, na linha da grande contística latino-americana de décadas anteriores (Augusto Monterroso e Felisberto Hernández, entre outros), conseguiu reinventar os lugares, as emoções e os fantasmas da nossa vida, dirigindo ao ser humano as grandes perguntas teimosamente sem resposta.

Vivemos, também em estado de natural tensão política, o sobressalto de quem, estando no meio de todos os fogos que o fogo alberga, tenta perceber como foi possível morrerem tantos portugueses, assistindo-se, ao mesmo tempo, ao colapso de um pesada estrutura de intervenção que também deveria ter sido, no tempo certo, de prevenção e de mudança da mentalidade dominante em relação à floresta e ao modo de lidar com ela.

O Portugal flagelado pelas chamas de Pedrógão Grande ou de Santa Comba Dão é o mesmo há muito tempo. É o Portugal da sistemática e alarmante desertificação do interior rural. É o Portugal discreto e teimoso das queimadas, das fogueiras, fogueirinhas e churrascos que multiplica ignições que muitas vezes degeneram em catástrofe com todos os resultados conhecidos e lamentados. É o Portugal da mão criminosa que amplia o espaço da tragédia por múltiplas razões que vão do alcoolismo à demência, passando pelas pequenas e grandes vinganças que não têm perdão ou remissão. Este ano houve mais detidos do que em 2016, mas estes incêndios não chegam para explicar a dimensão brutal da tragédia.

Mas este é também o Portugal que se quis tornar urbano deixando para trás o rasto pesado de uma memória e de uma tradição que nunca aceitou transformar-se de acordo com os parâmetros da modernidade. É ainda o Portugal que quase deixou de ser fumador mas não alinhou com as outras regras que criam novas mentalidades.

Este é também o Portugal das populações dispersas com escassos meios de assistência e apoio no meio de densos núcleos florestais agora em boa parte destruídos. E entretanto continuamos a não conseguir explicar a razão pela qual somos o país da Europa com maior número de ignições anuais.

Destaca-se, no meio deste quadro, a acção empenhada e sempre combativa das corporações de bombeiros e das autarquias, que arregaçam as mangas, lamentam a dimensão das perdas e apelam à resistência solidária das populações.

Muitos autores e artistas portugueses são, na itinerância natural das suas vidas, daqueles que melhor conhecem as terras atingidas e as populações que nelas vivem e sofrem. É esse o seu público e o peso da sua responsabilidade cívica.

Nestas horas é sempre curta a solidariedade do mundo da cultura. Mas todos sabemos que de uma forma bem organizada e justa muitas pessoas da comunidade criativa poderiam intervir em acções de sensibilização que envolvam as escolas e as estruturas do movimento associativo, condenando o uso imprudente e perigoso das fogueiras e queimadas e a forma tantas vezes leviana como se trata a floresta e a comunidade que a ela está ligada. Em matéria de prevenção está quase tudo por fazer e só quando a tragédia se propaga é que nos damos conta da falta que ela nos faz.

Quando perdemos um pouco mais 80 por cento do Pinhal de Leiria, associado a sete séculos de história, percebemos que morre connosco nestes dias aquilo que nunca ninguém conseguiu destruir. Com todos os fogos deste fogo morrem dezenas de pessoas, muitas outras ficam feridas e apercebemo-nos de que não sabemos gerir e preservar um património que afinal somos nós a lidar com o mundo, com a memória e com os outros.

Todos ficámos mais pobres nestes dias, sabendo que o Estado não pode voltar a falhar na defesa dos seus cidadãos e do património que lhes pertence e que envolve também centenas de postos de trabalho. Neste domínio não há eleições que nos tragam paz enquanto não se extinguirem todos os fogos reais e simbólicos que há no fogo.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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