Quero ver o português na CEE!

Comemora-se em 2020, o 35.º aniversário da assinatura do tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia. Desde 1977, quando apresentou a candidatura, a adesão tornou-se entre nós tema de conversas, entretenimento - e.g. a canção dos G.N:R., Portugal na CEE, de 1982 (com cujo refrão brinco) - e até de literatura - e.g. a Jangada de Pedra (1986), de José Saramago. Ninguém negará o impacto maioritariamente positivo que ela teve no desenvolvimento do país e nas nossas vidas, e.g. a nível político, económico, social, educativo, científico. Pouco ou nada se fala, porém, do impacto que a adesão à CEE teve no desenvolvimento e difusão da língua portuguesa.

Quando aderiu à CEE, Portugal levou consigo a sua língua e contraiu a obrigação de providenciar uma larga série de serviços linguísticos, como a tradução de todos os principais documentos comunitários para português, obrigou-se a ser suporte do direito de os cidadãos se dirigirem às instituições comunitárias e receberem respostas na sua língua, bem como de os seus representantes se expressarem e serem entendidos em português. Ter a sua língua como língua oficial da CEE implicou providenciar, entre outros, tradução especializada, interpretação simultânea e consecutiva, de e para as línguas comunitárias, redação técnica. O exercício destas atividades, por sua vez, requeria uma língua portuguesa perfeitamente descrita e codificada - dispondo e.g. de gramáticas, manuais de redação, dicionários e terminologias científicas e técnicas monolingues, bi- ou plurilingues.

A sociedade foi então confrontada com os frutos do seu proverbial desinvestimento na educação, no conhecimento e na língua. Orgulhosamente só, por décadas apostado apenas na instrução das elites, desigual, classista, analfabeto e iletrado desde sempre, cabeça de um império supostamente monolingue mas muito longe de o ser, Portugal fomentara a crença de que o isolamento e o atraso do seu povo eram a fonte da sua singularidade e do seu poder. Apesar de não ser, nos anos 70, o único país de língua portuguesa, Portugal assumia-se como dono exclusivo da língua, voltando "orgulhosamente" as costas ao Brasil e à sua variedade linguística. A abertura de Portugal ao mundo após 1974 não poderia, pois, fazer-se sem dor nem sacrifício.

Nos últimos 35 anos, muito mudou. Com apoios europeus, o país foi como pôde fazendo face às necessidades que a oficialidade do português acarretou, brotaram cursos de tradução, de línguas, de interpretação, cresceram estudos e descrições linguísticas, foi-se "descobrindo" que do outro lado do Atlântico também se falava português e fazia linguística. Para muitos profissionais europeus tornou-se interessante adicionar o português ao perfil linguístico e disparou o número de estrangeiros a estudá-lo e, à falta de um organismo nacional que o faça, os serviços de língua portuguesa da UE foram produzindo recursos normalizadores da língua, preciosos para quem trabalha na área. Muito foi feito, de facto. No entanto, porque alimentámos por décadas o isolacionismo e o desprezo pelo saber, começámos tarde e coxos, descobrimos com atraso o potencial da língua e teimámos em não o levar a sério, faltam ainda hoje ao português muitos e bons recursos linguísticos que sustentem a sua condição de língua internacional, pluricêntrica e de trabalho de grandes organizações internacionais.

Hoje não somos apenas dois, mas nove, os países de língua portuguesa, o que fará alguns acreditarem em possibilidades ilimitadas para esta língua e a querer ver o português na ONU. Não tenhamos, porém, ilusões. Enquanto não considerarmos, todos, a língua como ativo comum e não assumirmos as devidas consequências não só não beneficiaremos do seu enorme potencial, como aprofundaremos o fosso que nos separa de outras grandes línguas internacionais. Crescer acarreta custos e responsabilidades, e estes não dizem apenas respeito a alguns, mas sim a todos os países de língua portuguesa.

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