Quem são e o que fazem os linguistas?

Acontece com frequência, fora do âmbito profissional, dizer que sou linguista e obter dos interlocutores reações como um olhar de espanto, curiosidade em saber quantas línguas ensino e falo, ou uma justificação para o facto de não falarem corretamente.

Estas reações são perfeitamente explicáveis. A linguística é uma ciência recente, com cerca de 100 anos, que se deu a conhecer tardiamente em Portugal. Começou a ser ensinada nas faculdades sobretudo a partir dos anos 70, a criação da Associação Portuguesa de Linguística data de 1984 e a primeira licenciatura em Linguística, de 1987.

A linguística é a ciência que se ocupa da linguagem, entendida como uma capacidade, inata e distintiva, da espécie humana. A linguagem concretiza-se nas muitas línguas que existem no mundo. Os linguistas estudam as características e o funcionamento da linguagem, com base na evidência proveniente das línguas e das produções linguísticas. É por isso comum que os linguistas em geral estudem e falem várias línguas.

Os linguistas adotam uma perspetiva científica sobre a língua, observam-na como objeto de estudo e não emitem juízos de valor sobre ela. Cada "amostra linguística" é tratada como uma amostra de tecido celular observada ao microscópio. Ao estudar a língua, para o linguista não existem usos corretos nem incorretos, como para um biólogo não existem células corretas ou incorretas. Isto acontece porque quem define o que é correto ou incorreto na língua não são os linguistas, mas sim a sociedade que a fala, mais ou menos explicitamente, através das suas instituições. Porém, é desejável que os linguistas, enquanto especialistas, participem na descrição da norma padrão da língua, que é uma convenção social, e que, enquanto cidadãos, a usem nos contextos adequados.

A linguística divide-se em disciplinas, umas mais específicas (e.g. fonologia, sintaxe, semântica, morfologia), outras na interface com outras ciências (e.g. psicolinguística, sociolinguística, linguística clínica, forense, computacional). Em linguística existe investigação teórica ou fundamental e investigação aplicada. A teoria e a descrição linguísticas aprofundam o conhecimento e fornecem evidência científica. A linguística aplicada participa na resolução de problemas da sociedade ou dos indivíduos, com base no conhecimento linguístico.

São muitas as aplicações da linguística, algumas evidentes - como a tradução, o ensino e a formação de professores de línguas, a produção de materiais didáticos, ou a descrição da norma padrão, necessária à sociedade e indispensável a quem ensina línguas - e outras menos evidentes, como colaborar com a medicina, psicologia, terapia da fala (e.g. no diagnóstico de anomalias do desenvolvimento, na recuperação de lesões que afetem o uso da língua), ou auxiliar a investigação policial e a produção de prova pericial (e.g. na análise de documentos suspeitos, na identificação através da voz). As descrições linguísticas estão na base de muitas aplicações que usamos no dia a dia (e.g. motores de busca, tradutores automáticos, legendagem automática, reconhecimento e produção de fala). Os linguistas também colaboram com as autoridades na resolução de problemas e definição de políticas linguísticas. Os exemplos dados apenas ilustram brevemente o muito que podem fazer os linguistas.

Com exceção de nomes como Lindley Cintra, Maria Helena Mira Mateus, Malaca Casteleiro e João Costa, o público não conhece os linguistas portugueses. Eles não são figuras mediáticas e não se dão a ouvir com frequência. Talvez por isso, quando se discutem assuntos relacionados com a língua portuguesa, sejam ouvidas pessoas das mais diversas áreas de atividade, mas raramente os efetivos especialistas na matéria, ou seja, os linguistas. E, no entanto, eles existem.

Professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Presidente do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa - IILP

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