Portugal, lugar de exílio: memória que é urgente preservar

Depois da invasão da França pelas tropas hitlerianas, em Junho de 1940, dezenas de milhares de refugiados rumaram a Lisboa em busca de um destino que, a salvo do Holocausto, lhes garantisse paz e liberdade. Muitos conseguiram cumprir essa etapa graças aos vistos emitidos a partir de Bordéus pelo cônsul português Aristides de Sousa Mendes que, em assumida ruptura com Salazar e com o Estado Novo, terá emitido cerca de 30 mil vistos. A maioria dos destinatários eram judeus e estiveram em Lisboa, em Cascais e no Estoril, na Ericeira e na Figueira da Foz à espera do barco ou do avião que os transportasse para Nova Iorque, Cidade do México, Buenos Aires ou Rio de Janeiro.

Nos anos 90 do século passado, sendo eu vereador da Cultura da Câmara de Cascais, descobri caixas que guardavam dezenas de milhares de fichas de refugiados que eram enviadas pelos hotéis da zona para a polícia política do regime. Esse acervo foi preservado e estudado e deu origem ao Espaço Memória dos Exílios, criado na antiga estação de correios do Estoril, junto da pastelaria Garrett.

Desse modo foi possível confirmar a passagem pelo Estoril de alguns dos mais importantes refugiados da Segunda Guerra Mundial, com destaque para Antoine de Saint-Exupéry e para o realizador Jean Renoir, que partiram de Lisboa para Nova Iorque no navio Siboney. O que Saint-Exupéry, aviador profissional e escritor, viu no Estoril permitiu-lhe escrever o pequeno livro Carta a Um Refém, onde descreve com o seu estilo magistral a vida quotidiana dos refugiados, sempre em busca de uma noite favorável no Casino Estoril para poderem comprar uma passagem de avião ou um ou vários lugares a bordo de qualquer navio que fizesse aquela rota.

O autor de O Principezinho e de Voo Nocturno chegou a Nova Iorque, onde escreveu o livro que viria a eternizá-lo e que começou por ser editado em inglês com excelente acolhimento do público da época. Era uma narrativa mágica que viria a converter-se num dos livros mais vendidos e lidos de sempre, devido ao sedutor e muito inspirado tratamento poético. Depois, o escritor viria a incorporar-se como aviador nas forças dos Aliados, acabando por ser abatido por uma esquadrilha alemã perto da Córsega, no final de Junho de 1944. O seu corpo e o seu avião de reconhecimento nunca fora encontrados. Saint-Exupéry tinha 44 anos e deixou uma carreira literária magnífica por cumprir, não sendo simpatizante de Charles de Gaulle, que também não gostava particularmente dele.

Portugal e, de forma particular, o eixo Cascais-Estoril converteram-se em pontos de referência na angustiada geografia dos refugiados, uma boa parte dos quais decidi incluir no meu livro Refugiados (ed. Guerra e Paz, 2017).

No Estoril não viveu, mas sim em Lisboa, a filósofa judia alemã Hannah Arendt, que passou algum tempo, entre Janeiro e Maio de 1941, no n.º 6 da Rua da Sociedade Farmacêutica, partindo depois para Nova Iorque, onde viria a morrer em 1975, depois de uma vida intensa e dramática que envolveu uma relação amorosa com o filósofo alemão nazi Martin Heidegger e a escrita de um livro construído a partir do julgamento e execução de Adolph Eichmann, em Telavive. Os deputados do Livre na Assembleia Municipal propuseram a colocação de uma placa na casa onde residiu.

Muitos outros passaram por Portugal em fuga, desde Peggy Gugenheim até ao pintor surrealista Max Ernst, que, no meio de uma intensa relação amorosa, passaram uma longa temporada no Hotel Atlântico, à espera de melhores dias, que acabaram por chegar para eles e para muitos outros, deixando à distância o horror indescritível dos campos de concentração.

Seria possível e desejável, como várias vezes foi proposto, que hotéis como o Palácio, no Estoril, e muitos outros, por terem acolhido Antoine de Saint-Exupéry ou Jean Renoir, passassem a identificar os locais onde estiveram, como forma de homenagem à valentia que os fez fugir à repressão sem limite e procurar a liberdade onde se tornaram famosos, também como símbolos da resistência ao horror e à repressão sem limite.

O caso de Hannah Arendt constitui um bom exemplo do que pode e deve ser feito. Mas por Lisboa passaram outros como Stefan Zweig ou Alma Mahler, todos a caminho da liberdade e da paz de que nunca quiseram abdicar.

Recordá-los em tempo de novas vagas de refugiados constitui uma forma de celebração da liberdade e daqueles que arriscaram a vida em nome dela, estando dispostos a morrer para não acabarem os seus dias em campos de concentração.

Há sempre, sobretudo com o apoio das autarquias, quem possa realizar este levantamento de forma séria e rigorosa. Vale a pena não deixar morrer a ideia, por tudo o que significa e vale.

*Presidente da Direção e do Conselho de Administração da Sociedade Portuguesa de Autores

Mais Notícias

Outras Notícias GMG