Pensar em tempo de pandemia

No mês de março, quando chegou um inesperado confinamento e tivemos de reinventar a nossa forma de viver, começara a ser exibida em Portugal uma série televisiva de fim de tarde que segui quase com devoção, pelo menos com muito divertimento, através de 40 episódios.

Merlí, título desta série catalã, era também o nome do professor de filosofia (evocando talvez o mago do rei Artur) que usa métodos pouco ortodoxos para incentivar os alunos a pensar livremente, o que vai dividir as opiniões de alunos, professores e famílias. Cada episódio tem como ponto de partida um filósofo ou uma escola de pensamento que serve como fio condutor à narrativa, mas sobretudo permite tornar a filosofia mais próxima e convertê-la em instrumento para pensar e agir no quotidiano. A série tem alguns anos e percorreu vários continentes, mas chegou a Portugal num momento em que se iniciava um trajeto desconhecido, em que tempo e espaço se transformaram.

Que nos aconteceu neste tempo de pandemia? Como está a ser interpretado e perspetivado? Que ideia temos do espaço virtual em que nos encontramos para trabalhar, para celebrar, para aprender, para dialogar?

O filósofo chileno Martín Hopenhayan acaba de publicar um conjunto de ensaios, crónicas e aforismos, Multitudes Personales, em que reflete sobre a forte aceleração que antes nos era imposta e a súbita paragem provocada pela pandemia. Se a constante aceleração nos dava a ilusão de um contínuo imparável (o que servia a lógica capitalista: aumentar a produtividade ou ficar para trás e desaparecer), a pandemia veio travar esse movimento de forma tão abrupta que provocou uma precipitação e um colapso generalizado com que não sabemos lidar. Hopenhayan, que foi investigador de temas sociais na Comissão Económica para a América Latina e Caribe (CEPAL), havia publicado em 1995 Nem Apocalípticos, nem Integrados, contraponto ao famoso livro de Umberto Eco, refletindo já nessa altura sobre os efeitos da modernidade na América Latina, essa miragem da aceleração que agora parece ter colapsado. Em entrevista recente, considera que a pandemia serviu para compreender como afinal é frágil a ideia pretensiosa de que tudo se pode controlar e o conhecimento se tornou uma força inexpugnável. Habituámo-nos a conviver mal com a incerteza e o inesperado e, de repente, fomos colocados perante um desconhecido que põe em causa os patamares civilizacionais que julgávamos ter atingido. Eis-nos de regresso aos tempos da peste: "um pequeno bicho, o mais pequeno que pode existir, põe-nos em xeque e mostra a nossa ignorância, o que é um golpe no ego de toda a espécie", diz Hopenhayan.

Também o filósofo basco Daniel Innerarity, no recente livro Pandemocracia, aborda os efeitos destas mudanças repentinas, descontínuas, não antecipáveis, que exigem "uma nova maneira de pensar a realidade". Segundo ele, uma das lições a reter é que "conhecer é cada vez menos saber uma lista de acontecimentos gloriosos do passado e cada vez mais aprendizagem, ou seja, o conhecimento do futuro", quer dizer, em sociedades dinâmicas e voláteis como aquela em que agora vivemos, a sabedoria por meio da experiência vai sendo progressivamente substituída por operações que podem caracterizar-se como aprender do futuro: previsão, prevenção, antecipação, precaução. Conclui Innerarity que a atual crise não é o fim do mundo, mas o fim de um certo mundo: o "das certezas, de seres invulneráveis e o da autossuficiência", um mundo "calculável, previsível e obediente às nossas ordens", substituído pela entrada num "espaço desconhecido, comum e frágil", em que "temos de aceitar a nossa irredutível ignorância".

A visão de Slavoi Žižek é talvez uma das mais sombrias. Em A Pandemia que abalou o mundo, considera que este vírus é apenas um ensaio geral para as próximas crises e destaca as consequências das alterações climáticas em que, tal como agora, seremos obrigados a mudar as condições de vida e viver na incerteza. A diferença é que o vírus mata sem querer, enquanto as alterações climáticas são o resultado de uma ação humana e, nesse caso, o vírus somos nós.

Das teorias ecologistas às teses sobre o fim do capitalismo ou ao regresso a um Estado totalitário e controlador, nestes meses apareceram numerosos prognósticos sobre o futuro. O que parece comum é a certeza de que nada será como dantes e o novo normal pode ser uma utopia, tal como o retorno ao velho normal. Há muito que se anunciava a proximidade de uma radical mudança: a 4ª revolução industrial, o fim de muitas profissões, uma sociedade digital em que a inteligência artificial poderia superar a capacidade humana. Há muito que convivíamos com vírus de vária natureza, incluindo os informáticos, metáfora da indistinção entre real e irreal, da informação e das falsas notícias, e poderíamos prosseguir com outras projeções dessa ténue linha entre real e artificial.

É verdade que a pandemia, pela própria necessidade de confinamento, criou um tempo de suspensão que permitiu pensar, refletir sobre caminhos e até reforçar o que estava em perda, como o valor da res publica e, por extensão, o valor do esforço comum de estados e comunidades na resolução de problemas. Também é verdade que, nestes tempos, assistimos a ações inesperadas de solidariedade, como as dos gangues das favelas do Rio de Janeiro, geralmente envolvidos em lutas brutais e que, durante a pandemia, colaboraram na ajuda aos mais frágeis e idosos nas suas zonas de influência. É ainda verdade que se assistiu a uma melhoria da qualidade do ar durante os confinamentos, por exemplo, na China ou mesmo em Lisboa, mostrando que as alterações climáticas não são uma inevitabilidade. Também assistimos a movimentos de partilha e entreajuda que pareciam esquecidos. Ainda assim, o colapso económico é uma ameaça que pode ser maior que o vírus. Reconhecemos os sinais que anunciam mais desigualdade, mais pobreza, mais segregação.
E
ste é um tempo de valorizar o pensamento crítico que sempre ajudou a dilucidar acontecimentos, oferecendo novos entendimentos e reflexões em contraposição ao imediatismo do que vivemos. Este é um tempo em que os filósofos regressam e, com eles, a dimensão mais humana do ser. Este, afinal, é um tempo de escolhas que não devemos desperdiçar.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos - OEI

Mais Notícias

Outras Notícias GMG