Pedro Almeida Maia, "Ilha-América" – um sonho com asas entalado em rodas

Li Ilha-América (Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2020) de um fôlego. Tempos depois, voltei ao livro para refrescar pormenores. Neste apontamento, irei explicar em estilo solto as razões do meu entusiasmo.

Começarei pelo estilo da prosa. Disse-o já algures, não me lembro onde, porque me vi citado na imprensa e por isso me autoplagio: uma escrita "ágil, incisiva e vivaz". Saltaram-me esses três adjectivos e mantenho-os. Não é fácil agarrar o leitor e mantê-lo atraído pela agilidade e vivacidade da prosa narrativa.É que essa prosa está ali de serviço, a embrulhar uma história que - neste caso específico- seria inverosímil se não fosse baseada num acontecimento real de que, aliás, eu próprio me recordo bem pois ocorreu nos meus tempos de adolescente. A história é de facto inimaginável. Mas pode ser imaginável além de verídica, como já o tinha sido a da fuga de dois homens num pequeno barco de S. Miguel para a América, que Manuel Ferreira imortalizou no seu longo conto "O Barco e o Sonho". Se fosse ficção pura e simples, ninguém acreditaria. No entanto, Manuel Ferreira investigou-lhe os pormenores e contou-a com agarra de quem sabe que uma boa narrativa vive dos detalhrs significativos, e que o segredo é elidir o secundário ou somenos, tudo o que distraia a atenção do núcleo duro da corrente que capta e aprisiona a atenção do leitor.

Pedro Almeida Maia repetiu a proeza de Manuel Ferreira, agora naturalmente numa linguagem inteiramente moderna. Não apenas por se tratar neste caso de uma viagem de avião, em vez de num barquito construído num quintal. O autor investigou a sério tudo quanto estava ao seu alcance e só não conseguiu ouvir o real actor da façanha por razões que ninguém entende; nem esse herói, hoje retirado em Fall River num autoimposto silêncio, parece disposto a revelar. Daí que Almeida Maia se tenha agarrado a tudo o mais que lhe permitisse enquadrar e encenar o portentoso feito - desde a vida em Santa Maria onde a seguir à Segunda Grande Guerra uma Little America havia emergido quase do nada, como a ilha Sabrina alguns séculos antes, até Caracas, onde ele mesmo nunca esteve, mas obviamente investigou com minúcia, tentando captar a atmosfera dessa cidade na altura da impensável loucura do jovem micaelense evadido de Santa Maria.

O resultado desse aturado trabalho de pesquisa está aí numa narrativa que se sustenta de prosa em ritmo vivace, é certo, mas assente numa miríade de pormenores que soam reais, autênticos. Não que isso seja obrigatório, visto a ficção não estar obrigada a regras nenhumas que a prendam à verdade dos factos; no entanto, o autor autopropôs-se a recriação imaginada tanto quanto possível, não longe do que poderá ter acontecido; daí que o mergulho nos pormenores tenha sido crucial para a reconstituição da empolgante narrativa.

Obviamente que Almeida Maia deu folga à imaginação, pois o seu papel não é o de historiador, mas o de romancista. O truque - ou o jeito - está em usar a criatividade alimentada por aturado trabalho de pesquisa, de modo a tentar reconstituir um cenário verosímil, não necessariamente verídico, sobretudo porque a personagem que o provocou e viveu se votou a um sepulcral silêncio sobre essa sua fascinante loucura juvenil.

Soam igualmente a autênticas as descrições da Little America criada em torno do Aeroporto de Santa Maria, a tal "América emprestada aos ilhéus", como Pedro Almeida Maia de modo tão feliz sintetiza, "a América dentro da ilha", já que o resto de Santa Maria continuava ela própria como eu ainda vi, quando em 1956 ali aterrei em trânsito, na companhia do meu tio, e acabei passando três dias em Santo Espírito. A Santa Maria americana ficava no outro extremo da ilha e dela apenas obtive um cheirinho. Hoje dificilmente - se calhar impossível mesmo - as gerações pós-anos 50 e 60 serão capazes de imaginar os ares frescos que dimanavam de Santa Maria. Vinham sobretudo nas ondas sonoras da estação emissora do Clube Asas do Atlântico. S. Miguel estava confinada à sorumbática Emissora Regional dos Açores que, a partir da Avenida Gaspar Frutuoso, abria impávida e solenemente todos os dias às 18h com a voz de barítono que, alguns anos mais tarde, eu soube pertencer a Sílvio do Couto, por na minha adolescência nos termos encontrado regularmehte na redacção do jornal Açores, hoje Açoriano Oriental, onde eu colaborava e ele era redactor: Aqui Portugal, Ponta Delgada. A Emissora Regional dos Açores da Emissora Nacional, transmitindo em sessenta e dois metros, na frequência de quatro mil trezentos e oitenta e cinco quilociclos por segundo, o período de emissão destinado aos ouvintes do Continente (não sei porquê, mas é isto que ainda retenho no ouvido dos meus tempos da escola primária). E logo de seguida:Aos nossos ouvintes desejamos uma muito boa noite e uma óptima recepção do programa que inclui as seguintes rubricas às horas que passamos a indicar, hora dos Açores: Dentro de momentos, "Chegaram novos discos". 18:30 "Boletim Informativo"; 19:45 "Música escolhida" e, às 19 horas, como habitualmente, encerramento da estação. Bing-Beng! - ouvia-se como se de um xilofone e, de imediato: "Chegaram novos discos", que afinal eram (como a música da Relva) sempre o mesmo e mais forte. Depois, às 19:15h, voltava a abrir a estação, encerrando pelas 22 horas com o hino nacional, sem nunca ser explicado o porquê daqueles misteriosos 15 minutos de interrupção. E foi assim todos os dias, metódica e beneditinamente durante décadas.

A estação que as pessoas ouviam com interesse, porém, era mesmo o Asas do Atlântico. As novidades, o progresso, o mundo de lá de fora chegavam-nos através de Santa Maria. Por sinal, não me recordo nunca de alguma vez ter ouvido a mais leve queixa ou crítica dos micaelenses. Era um dado adquirido que entrara no consenso do quotidiano. Não havia televisão e a rádio era rainha do espaço público. O Rádio Clube de Angra servia a Terceira e, com dificuldade, S. Jorge, a Graciosa e o Pico, com o Faial a queixar-se de fraca recepção. As Flores e o Corvo ficavam a ver navios. Em S. Miguel, a capital radiofónica era Santa Maria. Melhor dito, o Aeroporto. (Aqui abro um parênteses para contar de um dia um emigrante aqui nos EUA me ter dito ao apresentar-se: Eu pertencia à elite do aeroporto. Mas isso é outra história que apenas por tabela entra aqui.)

Tão longe estavam da minha memória esses tempos do imaginário mariense em S. Miguel, e tão perto se me impuseram decrepente ao longo da leitura destas belas páginas de Pedro Almeida Maia. A "Ilha-América", ali ao sul, que só se via em dias ditos de prenúncio de chuva, tornara-se afinal uma presença diária constante na vida micaelense.

Em S. Miguel, "sentia-se as ideias encolherem-se na tristeza", como lapidarmente expressou o autor desta narrativa com direito a ser apodada de romance.

Eu ia chamar a estas minhas notas "O avião e o sonho", numa espécie de homenagem a Manuel Ferreira, mas cedo me apercebi de que o título já tinha dono, creio que o jornalista Pedro Barros Costa. Assim, ficam estas linhas sem um título de jeito, pois não consigo um bom substituto.

Quando entrevistei Victor Caetano, um dos protagonistas da aventura que inspirou a epopeia "O Barco e o Sonho" - e fi-lo por duas vezes para programas diferentes, um deles para uma série que mantive há quase 20 anos na RTP-Açores - ele fez questão de me declarar em tom peremptório: Não gostei do conto do senhor Manuel Ferreira! As coisas não se passaram como ele escreveu. E procedeu, de ambas as vezes, narrando-me em extraordinário pormenor todos os detalhes da viagem a ponto de uma entrevista de meia-hora para a RTP-Açores ter de desdobrar-se em dois programas. Mas, afinal, as divergências eram de facto secundárias. Todavia para ele, que tinha vivido tudo intensamente, cada pormenor era sagrado.

Pressinto estarmos aqui em presença de um fenómeno idêntico, com a diferença de, neste caso, o protagonista se recusar a pronunciar-se. O que ele poderia - e eu deveras gostaria de saber - era revelar o que sentiu, o que o dominou e lhe assolou a mente naquelas intermináveis horas de voo, comprimido pela roda de um avião no exíguo trem de aterragem, ao relento e com o imenso e medonho mar a seus pés em pano de fundo. Não podendo ter acesso ao privilégio dessa informação autêntica, resta-me a criativa imaginação de Pedro Almeida Maia, que sabiamente foi distribuindo pormenores dessa inaudita experiência ao longo da sua narrativa, em vez de a despachar de uma vez por todas na descrição da viagem entre Santa Maria e Caracas. O leitor vai por etapas regressando a ela nos interrogatórios, nas entrevistas, nas notícias dos jornais, penetrando pouco a pouco no mistério que foi, e permanece sendo, a cabeça do herói, aquele jovem Mané. Quem doseia assim os pormenores de uma história manuseia bem a arte de contar. E é esta impressão que eu gostaria de deixar aqui devidamente registada.

Tudo isto junto constitui um poderoso pacote de razões para recomendar vivamente a leitura deste livro e para saudar o seu autor, Pedro Almeida Maia, como uma respeitável voz da nova literatura destas ilhas. Afinal, o mundo das letras continua a ter asas para voar, e não deixam de surgir novos ases no Atlântico.

Professor Catedrático na Universidade de Brown

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