Para que os públicos regressem às artes

Já passou uma geração e, por isso, muitos não conheceram ou não recordam Lisboa antes da Capital Europeia da Cultura. Até 1994, a cidade era escura, decadente e solitária. Nesse ano, comemoravam-se 20 anos de regime democrático e a Lisboa 94 foi um dos primeiros grandes eventos culturais que marcaram a entrada de Portugal na Comunidade Europeia. Em 1991, Portugal - país só conhecido na Europa pelos seus emigrantes - apresentara-se em Bruxelas na Europália com as manifestações mais significativas da sua arte e cultura. Ao longo de mais de três meses, tiveram lugar exposições, colóquios, espetáculos de teatro, música, dança, cinema, lançamentos de livros e discos que mostraram um Portugal contemporâneo implicado na sua história.

O projeto da Lisboa 94 representou, também, um exercício de modernidade que teve como principal resultado uma espetacular transformação urbana. Vítor Constâncio, seu comissário, declarou na altura que a Lisboa 94 não era "um mero ato de consumo cultural, expresso num grande festival de artes. Procurámos que fosse também um investimento no futuro da cultura e dos seus criadores, deixando como herança novas obras, novos públicos e renovados equipamentos culturais", referindo ainda as novas exigências que se iriam colocar a partir de então às entidades responsáveis pela cultura. Poucos anos depois, em 1998, Lisboa acolheu a Expo 98 que, de igual modo, articulou uma programação cultural atrativa e muito diversificada com uma renovação urbana que recuperou uma zona da cidade que lhe estava amputada.

Talvez um dos mais importantes processos iniciados em Lisboa - e depois levado para o Porto, Capital Europeia da Cultura em 2001, e para Guimarães, Capital Europeia da Cultura em 2012 - tenha sido trazer as pessoas para a rua e devolver-lhes a vivência dos espaços abertos, quer através de ofertas culturais ao ar livre, quer através de múltiplos trajetos pela cidade, com mapas e visitas guiadas que pretendiam sobretudo estimular a descoberta. Em Lisboa, um dos programas de intervenção mais comentado foi o banho de cor dos edifícios, que abandonaram os cinzentos e as tonalidades pastel, para se renovarem através de cores fortes que só por si trouxeram uma nova energia à cidade.

Mas o principal resultado da Lisboa 94, e que tem vindo a ser consolidado, foi a adesão do público, que parecia desaparecido e acorreu além do esperado. Mais de um milhão e meio de pessoas, e não apenas de Lisboa, participaram na oferta cultural da Lisboa 94. O público das galerias e dos museus cresceu de forma significativa, as grandes orquestras mundiais esgotaram e os recintos de espetáculos quase sempre estiveram cheios.

Estas mesmas tendências prosseguiram com a Expo 98, o Porto 2001 e Guimarães 2012, o que também ilustra a progressiva descentralização da oferta e da produção cultural: de Faro a Bragança passando por muitos lugares.

A atividade cultural tornou-se ainda objeto de estudo, nunca sendo demais destacar a investigação desenvolvida, entre 1996 e 2013, pelo Observatório das Atividades Culturais (OAC), trabalho pioneiro e solitário que devolveu uma perspetiva crítica e informada sobre as dinâmicas do setor em Portugal. Veja-se, por exemplo, os volumes sobre Os Impactos Culturais da Expo"98 (1999) ou Os Públicos do Porto 2001 (2002), ou ainda o último volume da série Pesquisas Democratização Cultural e Formação de Públicos - Inquérito aos "Serviços Educativos" (2009). O título deste estudo constitui só por si um programa de ação, considerando que a democratização cultural tem como objetivo a descentralização da oferta e a ampliação do número e perfil social dos públicos que é preciso formar, sendo os serviços educativos um dos instrumentos mais relevantes.

Mas é sobretudo a escola que deve estimular o gosto pelas artes e garantir o acesso à fruição artística e produção cultural. O incentivo da sensibilidade estética e artística é tão importante para o desenvolvimento pessoal como para o pensamento crítico e para o pensamento criativo, o relacionamento interpessoal ou o saber científico. As artes ajudam a conhecer o outro e aproximam do desconhecido. E também não se constrói uma ponte sem imaginação e quase todas as descobertas implicam criatividade. O Plano Nacional das Artes, lançado em 2019 e agregando muitas iniciativas dispersas, vinha fazendo um caminho transformador que é fundamental não perder. Em tempo de incerteza, as escolas não podem esquecer as artes e, antes, fazer delas um centro irradiador de outros saberes. São extraordinárias as iniciativas que estão a acontecer e precisam de se multiplicar - o teatro, a rádio, as oficinas de leitura, as artes plásticas, a música, o cinema - muito contribuem para o bem-estar de jovens e crianças.

Todos nós precisamos de regressar aos lugares das artes por dois motivos essenciais: pelo bem que nos faz e pelo estímulo aos artistas. Sophia de Mello Breyner, numa célebre intervenção na Assembleia Constituinte, em 2 de setembro de 1975, declarou: «a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades. A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar - para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça».

Neste outono do nosso descontentamento, os números da pandemia aumentam e vivemos cercados pelo medo. Regressar aos lugares das artes - teatro, dança, música, cinema, museus, galerias, livrarias - é também uma forma de celebrarmos a vida e a profunda crença no futuro.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos - OEI

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