Óscares 2020

Não foi sempre assim. A primeira cerimónia dos Óscares, em Maio de 1929, consistiu num modesto encontro privado no Roosevelt Hotel em Los Angeles: toda a gente jantou lagosta, a entrega de prémios durou quinze minutos, e só um dos vencedores foi autorizado a cometer um discurso. Com o passar dos anos, o evento transformou-se gradualmente naquilo que é uma especialidade americana: rituais sazonais extravagantes e super-estilizados que parecem custar imenso dinheiro e monopolizam inevitavelmente a atenção do resto do mundo (como o Superbowl, as eleições presidenciais, ou a esporádica invasão militar).

O ritual inclui agora também um pré-ritual: aproximadamente duas horas de transmissão são dedicadas à chegada das estrelas ao Dolby Theater, atravessando a "Passadeira Vermelha", o único lugar do planeta onde atrizes profissionais podem ouvir a frase "O que é que tens vestido?" gritada por repórteres entusiásticas, em vez de sussurrada guturalmente ao telefone por Harvey Weinstein. "Nada de especial", respondem, "é só um cardigan bolero froufrou com confitado de lantejoulas", desenhado por alguém invariavelmente chamado Armando Armandini ou Giuseppe Giannini. A margem de manobra para a subversão é reduzida, mas aproveitada ao máximo. Natalie Portman levou um vestido bordado com os nomes de todas as realizadoras ignoradas pela Academia. Al Pacino levou um casaco com todos os borbotos ignorados por Al Pacino. A opção pela desordem desgrenhada só é acessível a quem partilhe a sua idade e o seu estatuto. De resto, regimentos para-militares patrulham o desfile, a postos para detetarem qualquer vestígio de eczema ou psoríase e executarem o infrator longe das câmaras.

Pelo segundo ano consecutivo, a cerimónia prescindiu de um anfitrião - um processo de descentralização radical que divide as responsabilidades de forma a que todos os convidados possam presidir ao velório de várias piadas que pareciam promissoras no papel, mas que também torna mais difícil perceber quando um segmento acaba e outro começa. A dada altura da noite, uma pessoa veio ao palco apresentar uma pessoa que veio ao palco apresentar uma montagem musical no ecrã que serviu para apresentar um número musical ao vivo. (O facto de o número musical ser de Eminem não serviu os interesses de quem tentava perceber o que se passava, ou que ano era). Privado da coerência de uma voz única, o humor foi o esperado nestas ocasiões: atores a fingirem de forma hilariante que não sabem coisas que na verdade sabem, vencedores semi-desconhecidos de prémios técnicos a gritarem a palavra "políticos!", e James Corden a vestir-se de gato.

Os discursos foram geralmente contidos, apesar do relaxar da regra informal que estipulava que todos os vencedores tinham apenas 90 segundos para salvar todos os seres humanos, animais e vegetais do planeta. O único que tentou foi Joaquin Phoenix, que começou por impugnar o egocentrismo da espécie, antes de passar três minutos e meio a expor as suas opiniões sobre leite e inseminação artificial. Renée Zelwegger restaurou algum decoro e sanidade ao evento, aproveitando o prémio que recebeu por interpretar Judy Garland para agradecer a um cantor, uma tenista e dois astronautas. A noite terminou com a coroação de Bong Joon-Ho e de Parasitas, um filme sobre quão incrivelmente fácil é invadir um espaço onde estejam reunidas pessoas muito ricas e assassiná-las a todas.

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