Os jogos papais com o comunismo

O presidente do Instituto da Memória Nacional polaco Jaroslaw Szarek apresentou há dias uma opinião segundo qual a eleição decorrida há 40 anos do Cardeal Karol Wojtyla para o papado acelerou drasticamente o colapso do comunismo na Europa. - Sem João Paulo II o comunismo duraria ainda várias gerações - afirmou Szarek. Paradoxalmente os próprios comunistas reforçaram a posição do jovem cardeal de Cracóvia na Igreja e contribuíram para o seu sucesso no Conclave finalizado em 16 de outubro de 1978. As perseguições às quais foi sujeito o futuro Papa e outros bispos polacos consolidavam a oposição no país, enquanto para exterior enviavam uma mensagem da "atitude indomável dos mártires pela fé". Os documentos do regime comunista polaco publicados em 2006, ou seja, um ano depois da morte do Papa, coincidem com a imagem traçada pelos amigos e conhecidos. Dois anos antes do conclave os serviços da inteligência da Polónia comunista escreveram sobre o cardeal: "podemos concluir objetivamente que a sua sabedoria e autoridade devem-se entre outros à sua fantástica capacidade de usar o potencial científico (...), capacidade de convencer para trabalhar para o bem da Igreja e não apenas leigos católicos, mas também outras pessoas, respeitadas na comunidade científica".

As opiniões sobre Wojtyla foram desenvolvidas durante quase quatro décadas, com base em numerosas escutas, colocadas entre outras na sede do arcebispado, em confessionários de igrejas, e graças as informações vindas de cerca de 220 agentes secretos que atuavam perto do cardeal cracoviano. Wojtyla, sabendo sobre a rede de confidentes que o rodeavam mesmo nos pequenos grupos informais costumava apresentar opiniões moderadas. Provavelmente a presença dos "emplastres" levava o a um maior autocontrole. Os métodos utilizados pelos serviços comunistas incluíram entre outros a desinformação e jogos operacionais para comprometer a vítima. Um deles foi programado para 1983, semanas antes da peregrinação de João Paulo II à Polónia. Os serviços comunistas tentaram difundir informações inventadas para comprometer o Papa. A ação, baseada num diário falso, cheio de histórias fictícias, falhou após um acidente sofrido por um dos funcionários.

A revolução pacífica polaca de 1989 foi possível não apenas graças à Igreja e um relativamente pequeno grupo de oposicionistas, mas também aos movimentos reformadores dentro do próprio partido comunista. No Partido Operário Unificado Polaco (PZPR) prevaleceu o bom senso, ajudando a fechar a etapa da ditadura para a abertura de um novo partido - Socialdemocrata (SdRP). Quatro anos após a queda do regime, os próprios polacos nas eleições livres entregaram o poder a pessoas que na década anterior haviam perseguido a oposição democrática e a Igreja.

Uma das pessoas-chave, provavelmente a mais importante no processo de desmontagem da ditadura, foi o Cardeal Stefan Wyszynski. O Primaz da Polónia, preso por três anos e perseguido por dezenas de outros, tornando-se a principal figura da oposição democrática, em torno da qual se concentravam também vários intelectuais e políticos da esquerda. Ele e vários outros bispos, apesar de buscar o diálogo com o regime e até apoiar algumas reformas económicas em troca do livre ensino da religião, tornaram-se nos anos 50 vítimas de prisões, assédio e torturas. Wyszynski, que antes do seu encarceramento era mal visto em Vaticano por tentativas de concilhar doutrinas opostas: da Igreja e do marxismo, próprio após a sua libertação em 1956 manteve uma desconfiança face às promessas dos ditadores comunistas. O primaz polaco também se distanciava das intenções vaticanistas de procurar nos anos 70 um diálogo com os líderes de europeus dos países comunistas.

Depois de quase meio século o Vaticano volta para a tentativa de um acordo com ditadores comunistas, desta vez na Ásia. O possível compromisso com Pequim coloca a Santa Sé numa posição difícil perante os católicos chineses, que continuam a ser perseguidos. Embora a Polónia comunista e a China atual não sejam casos iguais, existe uma analogia na maneira do regimes lidar com o Vaticano, tentando limitar a sua capacidade de livre eleição de bispos. O atual regime em Pequim, tal como o antigo em Varsóvia, tenta construir a Igreja Católica contemporânea na base dos padres "patriotas", leais ao poder estatal. Segundo as pastas secretas polacas, a maioria de sacerdotes leais ao regime não o apoiou de livre vontade, mas por chantagem (provas de condutas impróprias na gestão da paróquia ou escândalos sexuais). Perante as tentativas de subordinar a Igreja, Wyszynski respondia ao regime: "Deve-se dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Mas quando César se senta no altar, dizemos: Proibido!".

O tempo mostrará se a tática dos pequenos passos nas relações com Pequim foi adequada. O Vaticano corre o risco de perder fiéis, cuja fé foi posta à prova com verdadeiras perseguições. A Igreja leal à Santa Sé, chamada de "catacumbas", continua a ser considerada pelas autoridades chinesas como uma organização terrorista. O acordo com o Vaticano fortalecerá o regime em Pequim, que poderá usá-lo para fins de propaganda, melhorando assim a sua imagem perante as acusações permanentes de violação de direitos humanos. Parece que com o mesmo objetivo o líder norte-coreano Kim Jong-un convidou o Papa para uma visita a Pyongyang na segunda-feira passada. Talvez graças à peregrinação de Francisco o ditador asiático abranda com as suas práticas de crucificação de cristãos em árvores, queimá-los ou sujeitá-los a outro tipo de torturas, cuja lista foi tornada pública pela organização Ajuda à Igreja que Sofre (Kirche in Not). O sucesso da Igreja na domação de ditadores comunistas pode ser difícil, lembrando que estes respeitam apenas os adversários duros. Os problemas internos também não ajudam a Igreja, onde se incluem os vários casos de acusasões de abusos sexuais. Uns dirigem-se ao Cardeal Theodore McCarrick, o principal negociador, desde 2014, do acordo com a China. Suspenso em julho por Francisco no exercício do ministério sacerdotal deixou a Santa Sé mesmo em maus lençóis.

Jornalista e investigador polaco

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