Os 80 anos da Conferência de Munique

É com interesse que tomámos conhecimento do artigo pelo politólogo Dmytro Sydorenko "A Rússia, o Ocidente e os aspetos conjunturais das relações Internacionais" publicado recentemente numa coletânea "Estado, Ordem Internacional e Novas Ameaças" pela editora MGI (Portugal), Lda.

É de notar a reflexão do autor que "a "expulsão" da Rússia, pelo Ocidente, dos processos de interação global tem e terá o caráter sistémico e de longo prazo. Essa abordagem ganhou o caráter de uma obsessão sem os limites razoáveis que não permite realizar o diálogo e a procura dos compromissos".

Neste sentido não devemos esquecer as lições da história. Há precisamente 80 anos que se realizou, em Munique, no dia 29 de setembro de 1938, a conferência com a participação da Alemanha, França, Grã-Bretanha e a Itália. Como o resultado, foi assinado o Acordo de Munique que previa o desmembramento da Checoslováquia e a concessão da parte do seu território, os Sudetas, à Alemanha. Porém, a própria Checoslováquia nem foi convidada para a conferência. No âmbito dum conluio com as autoridades alemãs, a Polónia ocupou parte do território checoslovaco, aproveitando os frutos do Acordo de Munique.

Este evento tornou-se um dos mais importantes fatores na evolução dos processos internacionais que incentivaram a implementação de planos agressivos do Terceiro Reich. A política do "apaziguamento do agressor", conduzida pela França e pelo Reino Unido em relação à Alemanha de Hitler, sacrificando a esta, em particular, a Checoslováquia, resultou nas consequências catastróficas.

Naquela altura o nosso país empenhava-se na criação no continente europeu dum sistema verdadeiro e válido de segurança coletiva que tivesse podido prevenir os consequentes confrontos militares de escala sem precedentes. Muito lamentavelmente, esta linha não foi apoiada pelas principais potências ocidentais.

O complot em Munique foi o prelúdio para a Segunda Guerra Mundial tendo provocado a desconcertação, desconfiança e suspeição entre os possíveis aliados no combate contra o nazismo.

Hoje nós vemos que os acontecimentos de há 80 anos demonstraram, com toda a evidência, que é contraproducente tentar "isolar" os russos, recusar-se de cooperar connosco na procura de respostas às ameaças e desafios comuns.

A história ensina que é só na cooperação estreita com a Rússia que é possível construir um espaço comum da paz e da prosperidade na Europa e além das suas fronteiras. As propostas de Moscovo referentes a criação no nosso continente dum espaço sem linhas divisórias de Lisboa a Vladivostok estão em cima da mesa.

Primeiro Secretário e Adido de imprensa da Embaixada da Rússia em Lisboa

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