O terrorismo não é apenas "louco", "irracional" e "desumano"

O terror e a morte atingiram mais uma vez a Europa, desta vez no centro da União Europeia, com uma mensagem duplamente estratégica. Bruxelas é a capital das principais instituições do Continente e os atentados no aeroporto e na estação de metro na vizinhança da sede da UE enviaram uma mensagem clara. O objetivo é político e ninguém, seja quem for ou esteja onde estiver, se sentirá outra vez totalmente em segurança.
A condenação dos atentados em Bruxelas, como em Paris, Istambul, Damasco, Bagdad, Bassam ou Ouagadougou, tem de ser firme, absoluta e sem exceções, meias-medidas ou tentativas de distinção entre as vítimas. A clareza é aqui essencial, tal como o é na terminologia que usamos e nas soluções que propomos. Mas antes de podermos formular uma resposta, devemos enfrentar o problema de frente e tentar entender as suas origens (isto não significa de maneira nenhuma justificar atos de terrorismo, independentemente do que George W. Bush possa ter dito e do que Manuel Valls diz hoje).
É imperativo que esclareçamos as razões por detrás desta deriva para o extremismo violento - porque ele não é apenas "louco", "irracional" e "desumano". Estas palavras só servem para confundir o nosso vocabulário e não oferecem nenhum esclarecimento político sobre os elementos da equação. Elas acrescentam a cegueira a uma reação emocional já alimentada pelo medo. O que precisamos hoje é de bom senso e de debate sensato - temos de ser duros, sim, mas, acima de tudo, razoáveis.
Como explicar este extremismo violento? Porquê agora? Porquê em lugares de significado simbólico em todos os continentes?
A primeira razão é política. Não podemos, hoje, dar-nos ao luxo de desligar estes acontecimentos da violência, do terror e da morte que têm sido lugares-comuns no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Líbia e em África e na Ásia de um modo geral. A política externa europeia e norte-americana não acontece num vazio, como aqueles que nos têm como alvo repetiram já em inúmeros vídeos: "Vocês provocaram a guerra e a morte nos nossos países, agora irão sofrer as consequências."

Será legítimo declarar guerra quando os nossos cidadãos são mortos, mas considerar que estamos em paz quando matamos cidadãos de outros locais, algures, lá longe?
Embora nada possa justificar atentados terroristas, devemos ouvir aqueles que criticam a incoerência das nossas fidelidades e o nosso apoio a ditaduras. Será que a violência condenável da reação deles significa que podemos ignorar os seus argumentos? Será legítimo declarar guerra quando os nossos cidadãos são mortos, mas considerar que estamos em paz quando matamos cidadãos de países distantes?
A segunda razão tem sido dita pela metade em diversas declarações emitidas pelos comandantes por detrás dessas operações terroristas. Trata-se de provocar fraturas nas sociedades ocidentais entre muçulmanos e outros cidadãos no Ocidente. Trata-se de fazer os muçulmanos sentir que nunca serão bem-vindos nas nossas sociedades. O seu objetivo é usar os muçulmanos para alimentar o nosso medo do islão; para que os associemos ao perigo e à violência.
Espalhar a insegurança e a instabilidade social ao longo de linhas de fratura religiosas no coração do Ocidente é um dos objetivos explícitos desse tipo de atentados. Os comandantes fazem as suas presas entre jovens frustrados (educados ou não) e manipulam-nos psicológica e intelectualmente (na internet ou em lugares muitas vezes longe da mesquita). Eles vendem gestas de glória e de vingança contra a humanidade e os erros da história. A religião é evocada para construir, justificar e legitimar a violência.

O objetivo dos extremistas violentos é usar os muçulmanos para alimentar o nosso medo do islão; para que os associemos ao perigo e à violência.
Na verdade, este não é um processo de "radicalização religiosa" porque, frequentemente, a maioria dos jovens que se juntam a estas redes têm poucos meses de experiência de prática religiosa. A viragem é súbita, não é uma evolução progressiva da crença religiosa para a violência e o terrorismo. Alguns estão ainda envolvidos na pequena criminalidade, no álcool, nas drogas e na vida noturna quando organizam estes atentados.
Os recrutadores jihadistas usam a religião como ferramenta política e, para os derrotar, temos de responder na mesma moeda - com argumentos religiosos sólidos e rigorosos. Mas não nos devemos enganar no alvo: a religião é um disfarce que esconde aspirações políticas, sede de poder e divisões que são cínicas, maquiavélicas e muitas vezes desumanas. (O uso de drogas entre os militantes jihadistas durante os atentados está generalizado, revelando a sua, de alguma forma relativa, adesão a crenças de como alcançar o paraíso e a salvação.)
Como podemos responder a uma situação tão complexa, cujas causas são tão diversas e cuja consequência é a propagação de uma estirpe de violência que pode atacar em qualquer lugar, em múltiplas formas? Sabendo que grupos como o Boko Haram, o Daesh e o ISIL querem incutir medo e aprofundar as divisões a nível internacional, temos de evitar tentar derrotá-los com respostas demasiado emocionais e uma linha de pensamento que mostra a solução apenas como uma questão de guerra e de segurança. Em vez de definir um "nós" e um "eles", que distingue entre europeus e muçulmanos, temos de dizer "nós", em conjunto e com convicção. Eu disse a mesma coisa há 15 anos, quando lancei o "manifesto para um novo "nós"".
Precisamos urgentemente de estabelecer parcerias com base no respeito, na confiança e no debate crítico entre instituições políticas, organizações sociais e cidadãos (incluindo muçulmanos e a sua diversidade de representantes religiosos - não apenas aqueles arbitrariamente escolhidos pelas autoridades políticas para representar os muçulmanos).

Continuar a negar que não há qualquer ligação entre a nossa política (ou a nossa falta de uma política clara) na Síria, na Líbia, no Iraque e, até, na Palestina e os atentados terroristas que visam a Europa é uma prova da nossa alarmante ignorância.
Precisamos de nos manter humildes e, ao mesmo tempo, determinados a combater o extremismo violento confrontando-nos com as suas causas, tanto quanto com a sua expressão concreta. Na Europa, podemos começar por evitar críticas aos países vizinhos e às falhas dos seus serviços de informação - como ouvimos no Reino Unido sobre a França e em França sobre a Bélgica. Ninguém está em condições de dar lições aos outros e, além disso, é uma atitude que não leva a uma cooperação eficaz. Tal como os comentários alarmistas que reduzem uma situação muito complexa a uma guerra de civilizações ("eles querem atacar as nossas liberdades") ou a um problema de integração falhada ("estes jovens terroristas muçulmanos não compreenderam nem assimilaram os princípios da democracia") não ajudam em circunstância alguma. São conclusões falsas e perigosas.
Precisamos de uma política de segurança concertada em toda a Europa compreendendo que, em primeiro lugar, uma tal política só terá valor como parte de uma estratégia mais global e multidimensional e, segundo, que não pode ser usada para justificar a estigmatização de certos cidadãos ou o desrespeito pelos direitos humanos (incluindo os dos migrantes) e a igual dignidade das pessoas. Mais no topo, os Estados têm de assegurar a coerência das suas políticas externas no Médio Oriente e em África.
Continuar a negar que não há qualquer ligação entre a nossa política (ou a nossa falta de uma política clara) na Síria, na Líbia, no Iraque e, até, na Palestina e os atentados terroristas na Europa é uma prova da nossa alarmante cegueira ou ignorância. Não podemos apoiar ditaduras, ser parceiros políticos e económicos de países que exportam a doutrina salafita fundamentalista, ficar em silêncio quando civis são massacrados a sul das nossas fronteiras e esperar não receber uma resposta à injustiça e à humilhação que temos provocado.

Não há um fracasso na integração religiosa e cultural na Europa, mas há um défice desastroso de políticas eficazes em relação a educação, habitação e emprego.
A nossa política externa deve ser clarificada e coincidir com os nossos princípios fundamentais. Se nos deixarmos conduzir unicamente por interesses geoestratégicos e económicos, corremos o risco de continuar a pagar elevados custos humanos. Da mesma forma, precisamos urgentemente de repensar na totalidade, revolucionar mesmo, o tom do nosso debate político e as políticas dos nossos países. Os cidadãos muçulmanos devem participar em debates públicos para ajudar a construir as políticas sociais do futuro e não justificarem-se ou condenarem outros, na sequência de cada ataque ou controvérsia. Devemos ter a coragem de definir políticas com base na confiança e que incluam parcerias diversificadas com diferentes correntes de pensamento muçulmano. Não podemos ouvir apenas aqueles que nos dizem o que queremos ouvir e cometer o erro de confundir o tipo de monólogo interativo, no qual se envolvem as pessoas que pensam da mesma forma, com um diálogo aberto.
Por sua vez, os muçulmanos ocidentais não se podem limitar a levantar a voz quando falamos sobre o islão. Na verdade, eles devem passar menos tempo a falar sobre o islão e dedicar um maior interesse aos principais problemas que a sociedade deles enfrenta - educação, emprego, saúde, meio ambiente - para evitarem a tentação de se apresentarem como vítimas. Tenho repetido isto ao longo dos últimos 25 anos: não há um fracasso na integração religiosa e cultural na Europa, mas há um défice desastroso de políticas eficazes em relação a justiça social, educação, habitação e emprego.
Todos sabemos que é preciso esclarecer os termos do nosso debate atual. Precisamos de compreender a complexidade do fenómeno e ter uma abordagem holística, propondo uma variedade de respostas complementares. Ficarmos obcecados com a questão religiosa, recusarmo-nos a ver os aspetos políticos e esperarmos que as medidas de segurança estrita e de cenário de guerra possam proteger-nos apenas nos levará a consequências perigosas. Chegou o tempo para novas parcerias - entre países europeus e entre os Estados, sociedade civil e cidadãos de todas as confissões ou de nenhuma. Cabe-nos agora a nós, a cada um de nós à sua própria maneira, assumir a responsabilidade e deixarmos de nos esconder por detrás daquilo a que se chama "loucura e ódio" do "outro". Porque se tentarmos "explicar" o estado do mundo desta forma, não vamos chegar a lugar nenhum.

Professor de Estudos islâmicos Contemporâneos da Universidade de Oxford e presidente do think tank European Muslim Network (EMN)

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