O populismo combate-se também com a comunidade

No livro The Populist Persuasion Michael Kazin descreve a lógica do populismo como "uma linguagem cujos falantes concebem o povo comum como um nobre grupo não limitado estreitamente pela classe social; consideram os seus adversários da elite como interesseiros e antidemocráticos; e procuram mobilizar os primeiros contra os segundos". Ou seja, os populistas criam inimigos do povo para confirmar e validar a sua narrativa messiânica ficcional, em que alegam que agem e falam em nome da comunidade.

O populismo - quer de direita, quer de esquerda - funciona através da criação de um fosso entre o povo e a elite, e do recurso a bodes expiatórios para a disseminação da ideia da existência de inimigos do povo. E surge ou exacerba-se em momentos de maior convulsão social e política. Neste contexto, os populistas apresentam-se como a bandeira das preocupações, ansiedades e medos da população - sejam estes reais ou manipulados. Estes momentos - em que se enquadra o atual contexto - são marcados por caos e perceção de incerteza por parte da comunidade face ao futuro e ao sentido da vida. Os líderes populistas aproveitam-se desta insegurança e apresentam soluções aparentemente imbuídas numa sensação de controlo, resposta firme e voz forte. Estas soluções são, na maior parte dos casos, inexequíveis e impraticáveis por várias razões, mas fazem ressonância no desespero e nos medos das pessoas, resultando numa rápida e incontestada adesão.

Nos últimos dias, o acordo entre PSD e Chega nos Açores dominou o espaço público, centrando a discussão dos movimentos populistas apenas na ordem das forças políticas. No entanto, para que este acordo exista, foi preciso o Chega ter elegido dois deputados. E é aqui que entra o papel da comunidade.

Travar a ascensão dos movimentos populistas, nacionalistas e das teorias da conspiração que proliferam um pouco por todo o lado e que alimentam os primeiros, passa por compreender as necessidades da comunidade. Esta tarefa imperiosa na defesa dos valores democráticos não pode apenas ser travada na esfera política.

Além do aproveitamento das fragilidades sociais, o discurso populista recorre a campanhas de desinformação, a manipulação e ao aprofundamento de clivagens sociais, criando divisão na comunidade, para que os líderes populistas se apresentem como os salvadores da nação (isto lembra-vos alguém recentemente?).

O combate ao populismo - e falo em combate porque ele já está instalado - passa por envolver a comunidade de duas formas. A primeira é através da compreensão do que move as pessoas, as suas necessidades e ouvir as suas propostas. Implica sair à rua e falar com elas, auscultar as suas preocupações e fazê-las sentir-se parte da solução de uma forma responsável e crítica. A segunda é através do papel absolutamente essencial da educação na defesa e manutenção dos valores democráticos. A conceção e implementação de iniciativas de informação e literacia cívica, política e digital, com a participação dos líderes políticos, é uma das vias. Mais do que iniciativas de contranarrativa, que apenas contrariam o discurso dos movimentos populistas, a ideia passa pela construção de narrativas alternativas que recorram a factos, estatísticas e dados científicos. A desinformação e a má informação estão por todo o lado, por isso o objetivo destas campanhas é o de criar sociedades mais e melhor informadas, capazes de identificar os sinais e indicadores de desinformação e contestar quando a informação é manipulada.

Viver em democracia é isto mesmo: defendê-la, promovê-la e preservá-la activamente. Não temos todos de partilhar as mesmas ideias. Mas temos de ser responsáveis na partilha e defesa de informação que não constitua um atentado contra os direitos humanos e que não incite ao ódio, à desunião e à violência.

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