O Despotismo Iluminado da Boa Gente Que Nós Somos

Quem quisesse avaliar o pavor e a reverência que Portugal hoje inspira entre os povos inferiores não poderia escolher melhor índice que o Uruguai-Rússia. Eis duas equipas evidentemente aterrorizadas pela perspectiva de nos defrontar. Ambas tinham feito o trabalho de casa, chegando a conclusões opostas. O Uruguai, revelando alguma ingenuidade histórica, limitou-se a deduzir uma equação directa entre a nossa óbvia superioridade sobre o Irão e a nossa consequente vitória; agindo em conformidade, os seus jogadores esgatanharam-se para conquistar o primeiro lugar no grupo, evitando a catástrofe certa nos oitavos-de-final. A Rússia, uma nação mais madura, e mais versada nas artes da duplicidade, adivinhou correctamente que Portugal limitar-se-ia mais uma vez a fazer apenas o necessário (o empate), e apostou as fichas todas em perder o seu próprio jogo, garantindo assim uma eliminatória mais acessível contra a Espanha. Foi uma homenagem desesperada ao nosso presente estatuto: um estatuto tácito, invisível, mas que tudo permeia, como um fenómeno de poluição atmosférica.

Também o Irão entrou em campo já preventivamente inebriado pelos vapores da hegemonia lusitana. A transmissão da partida começou com uma curta-metragem filmada no túnel de acesso ao relvado: Fernando Santos a olhar um ponto fixo no horizonte, abanando a cabeça com desagrado, como faz todos os dias desde 1954; planos contrapicados de sobrancelhas tensas e poros em dilatação; um travelling ansioso pelas narinas humedecidas dos capitães. Um espectador neófito talvez tenha observado os rostos iranianos e detectado esperança, optimismo, coragem. Na verdade, mesmo nessa fase preliminar, nada era tão visível naqueles rostos como a mesma frustração incipiente, a mesma impotência resignada perante uma intransponível força natural que levou Xerxes, o Rei dos Persas, a mandar chicotear trezentas vezes as águas do Helesponto.

Portugal, alheio a este caldo de emoções negativas, comportou-se de forma exemplar. Com a magnanimidade que tem caracterizado as nossas interacções com povos subjugados desde tempos imemoriais, tratámos de oferecer ao Irão uma lição gratuita sobre o exercício do Poder - o nosso Poder, que hoje em dia consiste na capacidade para administrar o tédio, torná-lo compulsório, combiná-lo com a angústia, intercalá-lo com esporádicas atrocidades, e deixar na esteira deste compromisso com o pragmatismo um rasto de almas destruídas, mas devidamente reeducadas. Somos - há que deixar de lado a humildade e assumi-lo - uma gente espectacular.

E que prova maior da nossa generosidade do que o golo de Quaresma? Um país cujo despotismo táctico fosse menos iluminado trataria de punir os pobres iranianos com uma chouriçada fortuita; nós optámos por permitir-lhes um vislumbre do sublime antes de os afogarmos pedagogicamente em clorofórmio. Não foi um acidente que o golo tenha surgido pouco tempo depois de uma das mais eficazes aplicações práticas do aborrecimento enquanto instrumento de controlo na história do futebol. A aridez eufórica com que a selecção de todos nós reteve a posse a bola entre os minutos 37 e 38 deve encher-nos de orgulho. Os jogadores trocaram passes entre si várias vezes consecutivas, não daquela efeminada forma hispânica, em que a mobilidade saltitante vai gerando múltiplas alternativas, mas com uma muito mais nobre letargia, própria de elites que acartaram aos ombros o fardo de presidir à sistemática decomposição de todo e qualquer motivo de interesse. Foram dois minutos de glorioso nihil-taka: a técnica ao serviço da estagnação.

Mas a um aparelho repressivo eficiente não basta neutralizar cada cidadão subjugado; é necessário pô-lo a funcionar como o seu próprio burocrata. Daí o espaço dado a Taremi na área aos 90+4 minutos, para que fosse ele a assumir a responsabilidade de rematar às malhas laterais: sabemos que cada concessão acrescenta algo àquilo que a pessoa tem a perder, e alarga o perímetro da sua cumplicidade. Essa circunstância implicou-o no nosso triunfo, de uma maneira que um mero acto repressivo (um corte, uma defesa) não faria. É assim que se ganham corações.

No fim do jogo, mais importante do que a mera formalidade da passagem à fase seguinte, foi poder ver centenas de adeptos iranianos nas bancadas com os rostos encharcados em lágrimas. Lágrimas de gratidão, certamente, vertidas por pessoas que tão cedo não vão esquecer o privilégio que lhes concedemos: expandimos o seu conhecimento trágico da realidade. Não têm de agradecer, o prazer foi todo nosso.

Por opção pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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